O essencial Henry Hazlitt

A Portuguese translation by Matheus Pacini of The Essential Henry Hazlitt.

The original English version is also available.

1. A lição

A economia é um dos campos de estudo mais assediado por falácias, e tal fato não é acidental. Não bastassem as dificuldades inerentes ao assunto, são multiplicadas por considerações que não afetam, por exemplo, física, matemática ou medicina: alegações especiais de interesse egoístico. Conquanto qualquer grupo tenha interesses econômicos idênticos aos de todos os demais, cada grupo tem também interesses opostos aos de todos os outros grupos. Enquanto certa política governamental procura beneficiar todo mundo a longo prazo, outra política beneficia apenas um grupo, à custa dos demais. O grupo que se beneficia com esta política considera-a plausível e pertinente e investe pesado nos melhores profissionais para dedicarem todo o tempo na defesa de seu ponto de vista. Por fim, convence o público de que o caso é justo ou faz lobby para convencer os seus representantes nos governos.[1]

Além da crítica severa ao interesse próprio, há um segundo fator que todos os dias semeia novas falácias: a incapacidade de os homens verem além dos efeitos imediatos de determinada política ou seus efeitos apenas em um grupo especial, deixando de lado os efeitos dessa política a longo prazo, não só sobre esse determinado grupo, como também sobre todos os demais.

É a falácia comum de negligenciar consequências secundárias. E aí está a diferença entre a boa e a má economia: o mau economista vê somente o que está diante de seus olhos; o bom olha também ao seu redor. O mau percebe somente as consequências diretas do programa proposto; o bom olha, também, as consequências indiretas e mais distantes. O mau economista vê somente quais foram ou quais serão os efeitos de determinada política sobre determinado grupo; o bom investiga, além disso, quais são os efeitos dessa política sobre todos os grupos. Parece óbvia a diferença. A precaução de averiguar todas as consequências de uma certa política sobre todos talvez pareça elementar.

Não é de conhecimento de todo indivíduo, em sua vida privada, que há toda sorte de complacências que, em um momento, são agradáveis e que, noutro, se tornam desastrosas? Não é de conhecimento de toda criança que se comer muito doce poderá ficar doente? Não sabe o bêbado que, na manhã seguinte, despertará com o estômago ruim e com uma terrível dor de cabeça? Não sabe o dipsomaníaco que está arruinando o fígado e abreviando a vida? Não sabe o Don Juan que está se entregando a toda sorte de chantagens e doenças? Por fim, retornando ao campo da economia, ainda que em nível pessoal, não sabem o ocioso e o esbanjador, mesmo em meio a gloriosas experiências, que estão caminhando para uma sina de dívidas e pobreza?

Todavia, quando entramos no campo da economia pública, tais verdades básicas são ignoradas. Muitos economistas brilhantes condenam a poupança e recomendam o gasto como meio de salvação econômica; e, quando alguém assinala quais serão as consequências de longo prazo dessa política, respondem, petulantemente, tal como um filho indigno ao pai: “no longo prazo estaremos todos mortos”. Essas frases vazias passam por exemplos de sabedoria.

O problema é que, infelizmente, já somos vítimas das consequências de longo prazo da política do passado recente. O hoje já é o amanhã que ontem os maus economistas nos aconselharam a ignorar. As consequências de longo prazo de determinada política econômica podem tornar-se evidentes dentro de poucos meses. Outras talvez não se evidenciem durante vários anos. Outras, ainda, talvez não se mostrem durante décadas. Mas, de qualquer forma, essas consequências estão contidas na política econômica, isso é certo. Frente ao exposto, pode-se resumir toda a economia em uma única lição, e pode-se reduzir essa lição a uma única proposição.

A arte da economia diz respeito a considerar não só os efeitos imediatos de qualquer ato ou política, mas, também, os mais remotos; está em descobrir as consequências dessa política, não somente para um único grupo, mas para todos eles.

Grande parte das falácias econômicas, que está causando um terrível mal ao mundo, resulta da ignorância dessa lição. Todas elas se originam de uma das duas falácias fundamentais, ou de ambas: considerar somente as consequências imediatas de um ato, e apenas as suas consequências, para um determinado grupo, esquecendo os demais.

Não obstante, é possível o erro oposto. Ao considerarmos uma política, não devemos concentrar-nos somente em resultados a longo prazo para a comunidade como um todo: erro muitas vezes cometido pelos economistas clássicos. O resultado foi certa indiferença com o destino de grupos imediatamente feridos pela política ou pelos desenvolvimentos que provaram ser benéficos no cômputo geral e a longo prazo.

Hoje, porém, são relativamente poucas as pessoas que cometem esse erro; e estas pessoas são, principalmente, os economistas profissionais. A falácia mais frequente, que se repete diversas vezes em quase toda discussão que aborda assuntos econômicos, em discursos políticos, está em concentrar-se nos efeitos a curto prazo da política sobre determinados grupos e em ignorar, ou menosprezar, os efeitos a longo prazo sobre a comunidade como um todo. Os “novos” economistas iludem-se ao pensar que isso constitui um grande, quase um revolucionário avanço em relação aos métodos dos economistas “clássicos” ou “ortodoxos”, porque levam em consideração os efeitos a curto prazo que estes últimos, muitas vezes, ignoravam. Mas, ignorando ou menosprezando os efeitos a longo prazo, estão cometendo o mais grave dos erros. Esquecem-se da floresta, ao examinarem, precisa e minuciosamente, determinadas árvores. Seus métodos e conclusões são, quase sempre, profundamente reacionários. Às vezes, ficam surpreendidos ao perceberem que concordam com o mercantilismo do século XVII.[2] Incorrem, na realidade, (ou incorreriam se não fossem tão contraditórios) em todos os antigos erros dos quais os economistas clássicos[3], como esperávamos, se haviam libertado de uma vez por todas.

É com profunda tristeza que se observa, muitas vezes, que os maus economistas apresentam seus erros ao público muito melhor do que os bons economistas apresentam suas verdades. Existe, frequentemente, a queixa de que os demagogos são mais razoáveis ao exporem tolices sobre economia do que os homens sinceros ao mostrarem o que está errado na economia. A razão básica disso não é nenhum mistério: os demagogos e os maus economistas apresentam meias-verdades, enfatizando apenas o efeito imediato da política que propõem ou sobre seu efeito em um único grupo. No tocante a isso, talvez estejam algumas vezes com a razão. Nesses casos a resposta está em mostrar que a política proposta teria, também, efeitos mais demorados e menos desejáveis ou que ela poderia beneficiar somente certo grupo, à custa dos demais. A resposta está em completar e corrigir cada meia-verdade com a outra metade. Mas considerar todos os principais efeitos de uma medida sobre todos requer uma cansativa série de raciocínios para a qual a maioria dos ouvintes não tem paciência. Os maus economistas justificam essa debilidade e essa preguiça intelectual confortando os ouvintes que não precisam seguir o raciocínio ou julgá-lo segundo seu mérito, pois isso seria apenas exemplo de “classicismo”, de “desculpa de capitalistas” ou de qualquer outro termo injurioso que lhes possa ocorrer como eficaz. Enunciamos a natureza da lição e das falácias que se interpõem no caminho, em termos abstratos. Mas a lição não será concludente e as falácias continuarão a não ser reconhecidas, a menos que ambas sejam ilustradas com exemplos: por meio deles poderemos passar dos problemas econômicos mais elementares aos mais complexos e difíceis. Por meio deles poderemos aprender a detectar e evitar, em primeiro lugar, as falácias mais cruas e mais palpáveis e, finalmente, algumas das mais sofisticadas e sutis. É dessa tarefa que, agora, vamos tratar.


[1] HAZLITT, Henry. Economics in One Lesson. Irvington-on-Hudson, NY: The Foundation for Economic Education, 1952. p. 3–7.

[2] Mercantilismo: sistema político econômico que evolui com o estado moderno e que procura assegurar a soberania econômica e política de uma nação em sua rivalidade com outras. De acordo com esse sistema, o dinheiro é considerado um depósito de riqueza; o objetivo de um estado é o acúmulo de metais preciosos obtidos através da exportação da maior quantidade possível de seus produtos e a importação do mínimo possível, assim estabelecendo uma balança comercial favorável. (N. do T.)

[3] Economistas clássicos: Adam Smith, Jeremy Bentham, Thomas Malthus, David Ricardo e outros desenvolveram um sistema de pensamento econômico que defende um mínimo de intervenção do governo, a livre iniciativa e o livre comércio e que considera o trabalho a fonte de riqueza. (N. do T.)

2. Os primeiros anos da FEE

Fui convidado a partilhar algumas lembranças dos primeiros anos da Foundation for Economic Education (FEE). Era o ano de 1944, quando um homem bem-apessoado me visitou no New York Times – onde eu escrevia editoriais econômicos – e se apresentou como Leonard Read, CEO da Câmara de Comércio de Los Angeles.[4]

A filosofia de livre mercado já tinha se tornado quase um credo para ele. Disse-me, então, que buscava atingir uma audiência mais ampla a quem explicá-la e pensava em criar uma fundação libertária por conta própria.

Já em 1946, Leonard tinha levantado os fundos, criado a FEE aqui em Irvington e me convidado para ocupar o cargo de curador oficial, seu braço direito na organização.

É impressionante quão rápido as ações de Leonard começaram a produzir resultados importantes. Em Londres, Friedrich Hayek, impressionado pela iniciativa de Read, arrecadou fundos no ano seguinte, 1947, para realizar uma conferência com 43 autores libertários, principalmente economistas, de diversas nacionalidades, na cidade de Vevey, Suíça. A comitiva de dez autores dos Estados Unidos incluía figuras como Ludwig von Mises, Milton Friedman, George Stigler – e Leonard Read. Esse foi o início da influente e inspiradora Mont Pelerin Society, que hoje conta com centenas de membros de dezenas de países.

Outro efeito da iniciativa de Leonard logo se seguiu: a criação de outras instituições libertárias. “Baldy” Harper, que tinha trabalhado como economista desde a fundação da FEE, pediu demissão em 1958 e fundou o Institute for Humane Studies em 1963 na Califórnia. Logo depois, Antony Fisher fundou organizações semelhantes na Inglaterra, no Canadá e, por fim, nos Estados Unidos. Soube recentemente que Antony supervisiona 18 instituições em 11 países. Na Guatemala, Manuel Ayau fundou a Universidade Francisco Marroquín. Grupos em outros países latino-americanos fundaram seus próprios equivalentes à FEE. Levaria muito tempo para citar todas as instituições atuais aqui e no exterior que foram inspiradas pelo exemplo original de Leonard Read.

Permitam-me voltar às origens da FEE. Os instituidores oficiais foram David M. Goodrich, presidente do conselho (na época também presidente do conselho da B. F. Goodrich Company); Leonard Read, presidente; eu, vice-presidente; Fred. R. Fairchild, professor de Economia na Yale University, secretário; e Claude Robinson, presidente do Opinion Research Institute, tesoureiro. Havia 16 curadores. Entre eles: H. W. Luhnow, presidente da William Volker & Company; A. C. Mattei, presidente da Honolulu Oil Corporation; William A. Paton, da University of Michigan; Charles White, presidente da Republic Steel Corporation; Leo Wolman, professor de economia na Columbia University; Donaldson Brown, ex-vice-presidente da General Motors; Jasper Crane, ex-vice-presidente da DuPont; B. E. Hutchinson, presidente do conselho de finanças da Chrysler Corporation; Bill Matthews, editor da Arizona Star; W. C. Mullendore, presidente da Southern California Edison Company; e os funcionários da FEE.

Por essa lista, você pode imaginar o poder de persuasão de Leonard Read.

A FEE abriu suas portas em 16 de março de 1946. Passamos grande parte da primavera e do verão na biblioteca, enquanto o prédio principal era reformado. A partir de setembro de 1946, a equipe consistia em Leonard Read como presidente, Herbert Cornuelle como assistente da presidência, W. M. Curtiss como secretário-executivo, Baldy Harper como economista, Orval Watts como diretor editorial e A. D. Williams, Jr. como diretor de relações públicas.

A primeira medida de Leonard foi publicar uma síntese dos objetivos da FEE, bem como de suas atividades propostas. Ele listou não menos de 14 que estariam “dentro das atividades a serem inclusas no programa” conforme os fundos permitissem. Condenso-os aqui: (1) incentivo, incluindo assistência financeira, a acadêmicos; (2) estudos especiais das questões políticas e econômicas atuais; (3) folhetins aplicáveis a “centenas de problemas econômicos”; (4) panfletos para distribuição em massa; (5) um periódico (que se tornou realidade em 1954, quando a FEE assumiu a gestão do The Freeman); (6) livros: síntese, publicação e distribuição de obras clássicas como, por exemplo, A riqueza das nações e The Federalist Papers (O federalista); (7) promoção e publicação de livros-textos sobre economia; (8) um “clube do panfleto do mês”; (9) programa de rádio em rede nacional; (10) organização de grupos de estudo e aconselhamento em todo estado e em toda comunidade dos Estados Unidos – não grupos de ação política; (11) análise das tendências coletivistas de modo que novas propostas intervencionistas possam ser examinadas e refutadas antes de serem adotadas; (12) um instituto de palestras; (13) apoio à inserção de graduandos em Economia e instrutores potenciais em posições de curto prazo na indústria para se familiarizarem com problemas de produção. E, por fim, estudo de métodos de financiamento e integração de todas essas atividades.

Em um período curtíssimo de tempo, houve um fluxo intenso de publicações. Mais de 100 só no primeiro ano. Algumas delas eram panfletos de uma página; outras, pequenos folhetins; outras, ainda, materiais panfletários de centenas de páginas; e, por fim, pequenos livros. O primeiro que li foi Profits and the Ability to Pay Wages (Lucros e a habilidade para pagar salários), do professor Fred Fairchild, de Yale, lançado em agosto de 1946, com 64 páginas. Um mês depois veio o segundo panfleto, de 22 páginas, Roofs or Ceilings? (Tetos de preços), um ataque ao controle de aluguéis, enviado por dois jovens da Universidade de Chicago, Milton Friedman e George J. Stigler, ambos destinados a se tornar ganhadores do prêmio Nobel em Economia. A FEE distribuiu 36 mil deles, mais uma versão condensada de 500 mil cópias para a National Association of Real Estate Boards.

Ainda em 1946, houve a republicação da famosa monografia de Andrew Dickson, originalmente escrita em 1876, Fiat Money Inflation in France (Inflação monetária na França). Ao todo, a FEE distribuiu 52 mil cópias dela. Em janeiro de 1947, a FEE publicou um estudo de 88 páginas chamado Wages and Prices (Preços e salários), do professor Jules Bachaman, da New York University.

Caos planejado

Em 1947, foi publicada a obra Planned Chaos (Caos planejado), de Ludwig von Mises, um livreto de 90 páginas. Mises tinha sido incluído na folha salarial por Leonard Read desde o primeiro ano da FEE. Em 1947, a FEE começou a publicar a obra Mainspring of Human Progress (A força propulsora do progresso humano), de Henry Grady Weaver, e até hoje distribuiu 670 mil cópias dela. A edição que tenho contém 287 páginas.

Ao final de 1947, um pequeno livro de 95 páginas de minha autoria foi publicado sob o título Will Dollars Save the World? (Os dólares salvarão o mundo?) em capa dura e brochura. A edição em capa dura da Appleton-Century custava US$ 1,50.

Eu gostaria de dizer algumas palavras sobre isso, porque ilustra uma consequência desalentadora – ou uma falta de consequência. Pelo pré-acordo com a Appleton, Leonard encomendou uma primeira impressão em brochura de 80 mil cópias (mesmo eu achando um exagero, pois pensava que ficaríamos com o estoque parado. Felizmente, ele vendeu praticamente toda a primeira edição). Então, em janeiro de 1948, a Reader’s Digest reimprimiu uma versão condensada de 6.500 palavras do livro não só nos Estados Unidos, mas em todas as suas 20 edições estrangeiras, com circulação total de 13 milhões de cópias. Uma das consequências imediatas foi que as vendas da própria FEE pararam. Outra foi que fui convidado a testemunhar frente ao Senado e, depois, ao comitê da Câmara que tratava de ajuda externa. Apesar de toda essa publicidade não sonhada, não tenho a mínima evidência de que meu livro ou a versão da Reader’s Digest tenha salvado um centavo do contribuinte americano das investidas governamentais de ajuda externa.

Nesse sentido, não vejo evidência de que o panfleto de Friedman-Stigler tenha conseguido algo quanto à redução do controle de aluguéis. Tampouco vi efeito das publicações da FEE sobre as legislações subsequentes.

Na superfície, como disse, isso parece profundamente desalentador. Devemos reconhecer, todavia, que a situação ideológica americana está muito melhor do que se a FEE nunca tivesse sido fundada. Nossa instituição inspirou a formação de dezenas de outras organizações. Hoje, mais pessoas sabem o que está errado. Sim, temos inflação para todo lado, mas poucos países hoje tentam combatê-la com controles gerais de preços. A FEE ofereceu precisamente o que seu nome prometeu: educação econômica. A riqueza das nações, de Adam Smith, permitam-me lembrar, só começou a mudar a legislação de sua época muitos anos após sua publicação.

Resumamos a história. Em 1948, a FEE publicou o panfleto High Prices (Preços altos), de F. A. Harper. Em 1949, outro livro de Harper, Liberty: a Path to its Recovery (Liberdade: o caminho para recuperá-la), de 159 páginas; The Law (A lei), de Bastiat, em 1950. Até aqui, a FEE distribuiu 344 mil cópias dessas obras.

Em dezembro de 1958, Leonard publicou seu ensaio Eu, lápis. O tema desse artigo, como vocês bem irão lembrar, é que “nem uma única pessoa na face da Terra sabe como produzir um lápis”. É um pequeno clássico de Leonard que será lembrado por muitos e muitos anos.


[4] HAZLITT, Henry. The Early History of FEE. The Freeman, Irvington-on-Hudson, NY, Mar. 1984.

3. Entendendo a economia “austríaca”

A economia “austríaca” deve seu nome ao fato histórico de ter sido fundada e elaborada por três austríacos: Carl Menger (1840–1921), Friedrich von Wieser (1851–1926) e Eugen von Bohm-Bawerk (1851–1914). Os dois primeiros expandiram o trabalho de Menger, embora Bohm-Bawerk, em particular, tenha feito contribuições adicionais importantes.[5]

A grande obra de Menger, Principles of Political Economy (Princípios de economia política), foi publicada em 1871, mas só foi traduzida para o inglês 79 anos depois! Na Inglaterra, no mesmo ano, por coincidência, W. Stanley Jevons publicou sua Theory of Political Economy (Teoria da economia política). Ambos os autores desenvolveram independentemente o conceito conhecido como “utilidade marginal”. (Menger nunca usou o termo. Jevons chamou de “último nível de utilidade”. Foi Wieser que primeiro empregou o termo alemão Grennutzen, traduzido como “utilidade marginal”.)

Mas como poucos economistas americanos ou ingleses liam alemão no original, muitos anos se passaram até que a real extensão da revolução de Menger fosse percebida fora dos países de língua alemã. Pois foi Menger, ao reconhecer na totalidade as implicações do conceito de utilidade marginal, que abriu novos caminhos e, por assim dizer, virou a antiga economia clássica do avesso.

Ao longo de sua obra, Menger insistiu que o valor é essencialmente subjetivo e que, portanto, a economia deve ser, em sua essência, uma ciência subjetiva: bens não têm valor intrínseco próprio. Eles são valorizados por ajudar a satisfazer alguma necessidade humana. Uma dada quantidade de determinado bem irá satisfazer o desejo ou a necessidade mais intensa de um homem. Ele pode, sim, querer um segundo, terceiro ou quarto incremento. Mas, após cada unidade ser consumida ou empregada, seu desejo ou necessidade de uma unidade adicional daquele bem pode ser menos intensa e pode, por fim, ser totalmente satisfeita.

Ocorre que cada incremento (unidade adicional) daquele bem ao seu dispor terá um valor reduzido para ele. Mas como nenhuma unidade da quantidade total disponível daquele bem pode ter valor de troca maior que qualquer outra (de mesma qualidade), nenhuma outra unidade valerá mais no mercado que a “última” unidade ofertada. Assim, em uma dada comunidade, o valor de troca de um determinado incremento de cada bem será determinado pela relação entre sua quantidade total e a intensidade da necessidade ou desejo humano que ele supre.

Até aqui, pode parecer que isso nada mais é que um refinamento da antiga doutrina clássica de que valor e preço são determinados por oferta e demanda. Parece meramente expor tal doutrina em termos subjetivos em vez de objetivos. Não obstante, Menger destaca algumas implicações adicionais. Os valores dos bens são mutuamente interdependentes. Pão é mais valioso porque atende a uma necessidade direta de consumo. Farinha é valiosa porque é necessária para fazer o pão. Trigo é valioso porque é necessário para produzir farinha. Arado, semente, terra e trabalho são valiosos porque são necessários para a produção de farinha, e assim por diante.

Valores também são interdependentes porque, por exemplo, se uma das matérias-primas necessárias para a produção de um produto final estiver faltando, tal carência reduz a utilidade e o valor de outras matérias-primas necessárias.

Bens desejados e prontos para uso ou consumo direto são chamados por Menger de “bens de primeira ordem”. Matérias-primas e outros fatores necessários para a produção desses bens são chamados de “bens de segunda ordem”. Por sua vez, materiais, maquinário, trabalho e outros fatores necessários para produzir esses bens de segunda ordem são chamados de “bens de terceira ordem”, e assim por diante. Esses bens de segunda, terceira e outras ordens “superiores” são valorizados por causa dos bens de consumo que produzem.

Assim, enquanto a doutrina clássica ricardiana defendia que o valor “normal” dos bens de consumo era determinado pelo seu “custo de produção”, a doutrina austríaca defende que o próprio “custo de produção” é, em última instância, determinado pelo valor dos bens de consumo.

Essas duas doutrinas podem ser parcialmente reconciliadas na afirmação de que, embora o custo de produção de um bem não possa determinar diretamente seu valor, esse custo de produção determinará a quantidade dele que continuará a ser produzida. É o limite que o custo de produção impõe à quantidade total produzida de um bem que determina seu valor marginal e, portanto, seu preço de mercado. Assim, existe uma tendência de que o custo marginal de produção e o preço de mercado se igualem, mas não sob a alegação de que o primeiro determina diretamente o segundo.

Algo deveria ser dito sobre a distinção significativa entre o conceito ricardiano austríaco e o conceito austríaco de “custo”. O ricardiano (bem como muitos empresários) entende o custo como uma despesa monetária. Por outro lado, o economista austríaco tem um conceito muito mais amplo, que os economistas chamam de custo de “oportunidade”, ou custo da “oportunidade preterida”. Tais custos existem, é claro, não só nos negócios, mas em todas as decisões e ações da vida. O custo de aprender francês em qualquer dado período é renunciar ao aprendizado de alemão, ou aprender menos matemática, ou deixar de jogar tênis, etc.

Menger enfatiza a importância do tempo, bem como o papel da incerteza no processo produtivo. Ele também destaca que nenhum bem, não importa quão abundante, pode manter a vida e o bem-estar, mas que esses dependem da produção de combinações de diferentes tipos de bens nas proporções adequadas. Por fim, ele destaca que não se pode esperar que o processo produtivo continue em uma taxa adequada sem que exista proteção adequada da propriedade.

O valor econômico dos bens, repetindo, depende de suas quantidades respectivas em relação às necessidades humanas a que atendem. Ele não depende da quantidade de trabalho exigida em sua produção. Para citar Menger em Princípios de economia política:

em uma sociedade onde todos os bens estivessem disponíveis em quantidade superior à demanda, não haveria bens econômicos, tampouco qualquer riqueza. Teríamos, então, a seguinte contradição: que o aumento contínuo dos objetos de riqueza resultaria necessariamente, no final, na diminuição dos objetos de riqueza.[6]

(Em outras palavras, Menger atacou mais de um século atrás uma falácia básica nas estatísticas populares do PIB).

O valor dos bens advém de sua relação com nossas necessidades, e não é inerente aos próprios bens. A objetivação do valor dos bens – quando, na realidade, o valor é por sua própria algo totalmente subjetivo – muito tem contribuído para gerar a conclusão existente quanto aos fundamentos científicos da economia política.[7]

O valor que um bem possui para cada indivíduo é igual à importância que tem para ele aquela necessidade (ou necessidades) cujo atendimento depende da disponibilidade do bem em questão.[8]

Não há nenhum nexo causal necessário e direto entre a medida do valor do bem em pauta e a quantidade maior ou menor (ou nula) de trabalho, ou de outros bens de ordem superior, que foi necessária para produzi-lo […] O valor de um diamante independe totalmente de ter sido ele encontrado por acaso ou ser o resultado de 1.000 dias de trabalho em um garimpo.[9]

Menger prossegue discutindo como bens de ordem superior, incluindo bens de capital, obtêm seu valor: “é evidente que o valor dos bens de ordem superior é sempre, e sem exceção, determinado pelo valor previsível dos bens de ordem inferior para cuja produção os mesmos servem”.[10]

Ele esboça uma teoria do juro, mas a deixa vaga. Na página 310 dos Princípios de economia política, ele nos diz: “chegamos a uma das verdades mais importantes da economia política, o princípio da ‘produtividade do capital’”. Mas ele enfatiza que essa produtividade ocorre apenas com o passar do tempo e que, portanto, o valor de mercado dos bens atuais e disponíveis está “descontado” se comparado com o valor esperado dos bens equivalentes no futuro.

Uma teoria de preferência temporal

Isso sugere que Menger inclinava-se mais a uma teoria do juro relacionada à “preferência temporal” que à “produtividade”, embora a distinção entre essas teorias não estivesse clara e explícita até a publicação das obras de Bohm-Bawerk intituladas Capital and Interest (Capital e juros), em 1884, e Positive Theory of Capital (Teoria positiva do capital), em 1888. Bohm-Bawerk deu grande ênfase à produtividade superior de processos de produção capitalista (roundabout) e, portanto, (depois da refutação brilhante de teorias de produtividade do juro), acabou por si mesmo oferecendo uma teoria do juro que combinava produtividade e preferência temporal. Nos dias de hoje, seguindo os passos de Frank A. Fetter e Ludwig von Mises, praticamente todos os “austríacos” apoiam uma teoria pura de preferência temporal.

Retornando a Menger: seu Princípios de economia política apresenta uma “teoria da troca”. Nela, ele afirma que homens não compram, vendem ou negociam uns com os outros devido tão só à “propensão ao comércio” – como inferido por Adam Smith –, mas porque cada homem busca maximizar sua satisfação ao trocar o que valora menos pelo que valora mais. Dessa forma, há um aumento da satisfação de todos. A troca é, portanto, uma parte integral de todo o processo produtivo. O que está sendo produzido é valor. Toda a teoria de preço de Menger, é bom ressaltar, desenvolve-se com base no “caráter subjetivo do valor”.

O capítulo final dos Princípios de Menger é sobre a “Teoria do dinheiro”. Tal capítulo não discute explicitamente temas como taxas de juro ou inflação, mas lida unicamente com fundamentos, em especial, a origem e a evolução do dinheiro. O dinheiro não é produto da convenção dos homens engajados em atividades econômicas, nem um produto resultante de atos legislativos. O dinheiro não é uma invenção dos povos.[11] Ele se desenvolveu do escambo. Como raramente ocorria de A e B possuírem e estarem dispostos a oferecer exatamente o que o outro queria, o escambo triangular e indireto começou a ocorrer. Primeiro, os homens ofereceram bens especializados por bem mais “vendáveis”, com maior demanda no mercado, na esperança de que poderiam trocá-los, por sua vez, por bens particulares que eles próprios queriam. Como resultado, esses bens mais “vendáveis” se tornaram ainda mais “vendáveis” por causa dessa demanda extra. Por fim, o mais vendável de todos se tornou a “moeda”. Historicamente, todos os tipos de bens serviram como moeda, embora o último adotado tenha sido moedas com pesos precisos de cobre, prata e ouro.

Dinheiro não é uma “medida de valor”, embora seja legítimo chamá-lo de “parâmetro”. É a única commodity em que todas as outras commodities podem ser avaliadas sem procedimentos de produção (roundabout). É a forma mais apreciada pela qual as pessoas podem poupar e armazenar parte de sua riqueza. O direito à cunhagem têm normalmente sido deixado para os governos, mesmo que “tenham frequentemente abusado de seu poder”.

Pode parecer que dediquei um espaço desproporcional a Menger, mas as contribuições especiais da economia austríaca podem ser mais claramente percebidas, creio eu, se começarmos nos atendo a alguns detalhes de quem a originou.

O primeiro sucessor importante de Menger na tradição austríaca foi Friedrich von Wieser, que, iniciando em 1884, publicou diversos livros elaborando, aperfeiçoando e refinando a teoria do valor de Menger, em especial, os problemas de custo, “imputação” e distribuição.

O próximo grande sucessor foi Eugen von Bohm-Bawerk, cujas contribuições inovadoras presentes em Capital e juros, de 1884, e Teoria positiva do capital, de 1888, já foram mencionadas. Além disso, Bohm-Bawerk escreveu uma refutação brilhante de O Capital, de Karl Marx, em 1896, em um trabalho relativamente curto, traduzido ao inglês sob o título Karl Marx and the Close of his System (Karl Marx e o fracasso de seu sistema). Nesse ensaio, Bohm-Bawerk expôs, em particular, as falácias da teoria do valor-trabalho e da teoria da “exploração” de Marx, teorias estas que Marx tinha derivado como supostos corolários dos erros de Ricardo. Deve-se enfatizar que foi a análise da economia austríaca que tornou a refutação de Bohm-Bawerk tão conclusiva. Nenhuma refutação baseada nas suposições dos antigos economistas clássicos poderia ter sido tão devastadora.

Após o falecimento dos seus três fundadores – Menger, Wieser e Bohm-Bawerk –, a economia austríaca caiu em um longo esquecimento. Não foi por ter sido refutada, mas, sim, esquecida. Os economistas dos países anglo-saxões passaram a se dedicar a questões como o tratamento matemático de problemas do “equilíbrio geral”. A perspectiva austríaca foi revivida principalmente por um homem, um austríaco de nascimento e “austríaco” por convicção: Ludwig von Mises (1881–1973). Ele teve grande influência tanto por seus escritos como por suas palestras. Entre os seus mais destacados seguidores estiveram Gottfried Haberler, Fritz Machlup, Oskar Mongenstern, Lionel (hoje Lord) Robbins e, o mais influente de todos, F. A. Hayek (n. 1899).

Ludwig von Mises era prolífico, mas suas principais contribuições foram feitas em três obras-primas: The Theory of Money and Credit (Teoria da moeda e do crédito), publicado primeiro em alemão, em 1912, Socialism: an Economic and Sociological Analysis (Socialismo), também publicado primeiro na Alemanha, em 1922, e Human Action (Ação humana), publicado primeiro em alemão, em 1940, e depois em uma versão escrita em inglês, em 1949.

Mises e a ação humana

Embora hoje exista um número gratificante de jovens economistas americanos escrevendo na tradição austríaca, a Ação humana ainda se destaca como a apresentação mais completa, poderosa e unificada da economia austríaca. Mises sempre reconheceu sua dívida para com seus predecessores. Ele conta em uma pequena autobiografia (Notes and Recollections, 1978) que, perto do Natal de 1903, leu os Princípios de Menger pela primeira vez. “Foi ao ler esse livro”, escreveu, “que me tornei economista”.

Levaria muito tempo para citar e explicar todas as contribuições à economia feitas por Mises, portanto, me contentarei ao mencionar apenas duas delas. Ele foi o primeiro a provar que o “cálculo econômico” era impossível sob o socialismo; e ele fez uma das maiores contribuições de qualquer economista no combate ao problema do “ciclo econômico.”

Como Mises rejeitou tão intransigentemente o intervencionismo do governo em todas as suas formas, ele adquiriu a reputação de “extremista laissez-faire” durante grande parte de sua vida e foi escandalosamente ignorado pela maioria dos economistas acadêmicos. Mas, por Hayek ter elaborado suas próprias ideias de forma mais conciliatória, seus escritos atraíram mais atenção do mundo acadêmico, e ele chegou à prominência em 1931 com sua própria contribuição à teoria do ciclo econômico, Prices and Production (Preços e produção), seguindo linhas similares às de Mises. Logo, é justo dizer que a teoria dos ciclos é uma fusão dos pensamentos de Mises e Hayek.

Hayek também era um escritor prolífico, mas embora tenha escrito muito sobre moeda, ciclo de negócios, inflação e, além disso, uma obra chamada The Pure Theory of Capital (Teoria pura do capital, 1941), ele nunca escreveu um livro abrangente sobre princípios econômicos. Ao final de sua vida, ele se focou principalmente nos domínios da política, ética e direito, escrevendo tratados profundos e amplamente discutidos como The Constitution of Liberty (Os fundamentos da liberdade) (1960) e uma trilogia chamada Law, Legislation and Liberty (Direito, legislação e liberdade), concluídos em 1979. Ele foi muito mais influente em vida que Mises e foi agraciado com o prêmio Nobel de Economia em 1974.

Hoje, o grupo de jovens economistas “austríacos”, embora reconheça sua grande dívida para com Mises, não trata a obra Ação humana como a palavra final na questão, encarando uma ampla gama de problemas econômicos com vigor renovado. Murray Rothbard (n. 1926), aluno de Mises, produziu um tratado em dois volumes, Man, Economy, and State (Homem, Economia e Estado) (1962), seguindo as linhas misesianas, com notável clareza de exposição, e fazendo contribuições importantes por si só, destacando falácias, por exemplo, nas teorias prevalentes sobre “preço de monopólio”.

Israel M. Kirzner (n. 1930), professor de Economia na New York University, outro ex-aluno de Mises, embora não tenha se dedicado a uma obra abrangente sobre “princípios”, explorou problemas individuais em cinco volumes separados: The Economic Point of View (Ponto de vista econômico) (1960), Market Theory and the Price System (Teoria de mercado e sistema de preços) (1963), An Essay on Capital (Ensaio sobre o capital) (1966), Competition and Entrepreneurship (Concorrência e empreendedorismo) (1973) e Perception, Opportunity, and Profit (Percepção, oportunidade e lucro) (1979). Seu trabalho é reconhecido por seu grande academicismo, abordagem sistemática e precisão nos conceitos. Ele trouxe mais clareza a todo problema de que tratou.

Por fim, nenhuma referência a autores individuais seria adequada se não incluísse o professor Ludwig M. Lachmann (n. 1906). Embora seja um dos economistas austríacos mais originais e profundos, sua obra nem chegou perto de obter o reconhecimento que merece. Entre seus principais livros, estão: Capital and its Structure (Estrutura do capital) (1956; republicado em 1978), The Legacy of Max Weber (O legado de Max Weber) (1971) e Capital, Expectations, and the Market Process (Capital, expectativas e o processo de mercado) (1977). Seus escritos são notáveis por sua ênfase no papel das expectativas e por sua aplicação profunda de “subjetivismo radical”.

Restrições de espaço me permitem listar apenas os nomes de alguns membros novos do grupo hoje crescente de economistas “austríacos”: S. C. Littlechild, Gerald P. O’Driscoll, Jr., Mario J. Rizzo, Hans Sennholz, Sudha R. Shenoy e Lawrence H. White. Mas uma lista tão arbitrariamente curta omite, injustamente, um grande número de nomes.

Os economistas “austríacos”, com mais consistência que outras escolas, têm criticado praticamente todas as formas de intervenção governamental no mercado – em especial, inflação, controle de preços e esquemas de redistribuição de riqueza ou renda – porque reconhecem que essas sempre levam à erosão de incentivos, a distorções na produção, à escassez, à desmoralização e a consequências similares deploradas até mesmo pelos originadores desses esquemas. Contudo, os juízos pessoais de valor da política governamental não são, é claro, uma parte essencial da teoria austríaca.

O presente vigoroso da Escola Austríaca não se contenta apenas em reexplicar os princípios desenvolvidos por Menger e Mises, mas está abarcando constantemente novos problemas, ou analisando mais seriamente os antigos. Isso fica muito evidente em um volume recente de New Directions in Austrian Economics (Novas perspectivas na economia austríaca) (1978), editado por Louis M. Spadaro, com contribuições de 11 autores. Em seu ensaio final, o próprio professor Spadaro destaca alguns dos problemas ainda não resolvidos que devem ser explorados pelos austríacos. De certa forma, todavia, praticamente todas as 11 contribuições fazem a mesma coisa.

Eu já ouvi de um economista de outra escola que não existe tal coisa como economia “austríaca”; só existe economia boa ou ruim. Mas, da mesma forma, poderíamos dizer que não existe economia ricardiana, marxista, keynesiana, etc. Esse tipo de afirmação, embora de certa forma verdadeira, é falsa em outra. Ela é falaciosa por implicar que, se algo é classificado de acordo com uma característica, não pode ser classificado de acordo com outra. É como dizer que não existem pessoas americanas ou japonesas; existem só homens e mulheres. Aqueles que se consideram economistas “austríacos” assim se autodenominam devido às suas origens históricas; mas não só isso: eles também acreditam que suas teses fundamentais são verdadeiras e oferecem mais potencial que qualquer outra para o progresso na ciência econômica.

Talvez algo deveria ser dito sobre as principais diferenças entre a economia austríaca e o que podemos chamar de economia “ortodoxa” ou mainstream. A dificuldade aqui é definir o que é economia mainstream. Economistas ainda estão divididos entre um conjunto de “escolas” reconhecidas”: neoclássicos, keynesianos, Escola de Chicago, Escola de Lausanne e assim por diante. Os limites de espaço me proíbem de aprofundar as doutrinas de cada uma delas. Mas uma diferença notável dos austríacos para todas as outras está no método de raciocínio. Os austríacos enfatizam o individualismo metodológico. Isto é, não apenas começam a enfatizar as ações, preferências e decisões humanas, mas ações, preferências e iniciativas individuais. Economistas mainstream estão preocupados com “macroeconomia”, com médias e agregados; e, portanto, buscam quantificar tudo, tentando reduzir a economia a uma ciência “exata”, obcecados com equações matemáticas complexas que tentam estipular as condições de “equilíbrio geral”.

“Equilíbrio”: conceito útil, porém nunca uma realidade

Por esses economistas, o conceito de “equilíbrio geral” é definido em termos altamente abstratos e obscuros; mas para o leigo pode ser definido como uma condição em que todos os milhões de commodities e serviços estão sendo produzidos em quantidades e proporções exatas em que são relativamente demandadas por produtores ou consumidores, de modo que não existem “faltas” ou “excedentes”. Todos os preços refletem custos, e não existe mais lucro na produção de uma commodity em comparação com outra. (Na verdade, não existe “lucro puro”.) Esses economistas admitem que essa condição não existe em momento algum, mas defendem que existe uma tendência constante no longo prazo em direção ao equilíbrio, porque quando há lucro residual oriundo da produção de um determinado bem, produtores fabricam mais dele, e quando há uma perda na produção de outros produtos, produtores fabricam menos dele ou, simplesmente, se dedicam à produção de outra coisa.

Agora, o conceito de equilíbrio (ou, muito melhor, o conceito de Mises de uma “economia uniformemente circular”) pode ter grande utilidade como ferramenta de pensamento. Frequentemente, somos mais capazes de analisar os problemas da mudança se iniciamos com a suposição fictícia de um estado de coisas em que certas mudanças são hipoteticamente eliminadas. Mas essa é uma construção puramente imaginária, uma ficção útil. Nunca deveria ser confundida com a realidade.

Enquanto um “equilíbrio” verdadeiro entre o custo marginal de produção e o preço de mercado de qualquer commodity é uma condição raramente alcançada, mesmo momentaneamente, um “equilíbrio geral” na produção relativa, preço de oferta e de demanda de todas as commodities e serviços é uma condição que nunca é alcançada, mesmo por um simples instante no tempo.

O próprio conceito é extremamente nebuloso. Economistas neoclássicos parecem obcecados atualmente em propor equações algébricas complexas que estipulam as condições de equilíbrio ou as relações funcionais sob “concorrência perfeita” e afins, embora seja difícil especificar precisamente o que representam seus eixos X e Y. Eles não podem fazer referência a quantidades físicas, porque você não pode somar maçãs com cavalos ou uma tonelada de relógios com uma tonelada de areia. Poder-se-ia somar ou comparar quantidades e preços, mas qual seria o significado desse total ou das partes que o compõem? O preço, mesmo de uma commodity, difere de hora a hora, lugar a lugar e transação a transação. O valor da própria moeda flutua e muda constantemente sua taxa de câmbio com commodities. Se simplesmente somarmos ou compararmos “valores”, então, devemos reconhecer que valores são puramente subjetivos: é impossível mensurá-los ou totalizá-los porque diferem de indivíduo a indivíduo.

Se ignorarmos essas dificuldades fundamentais, aonde chegamos? Mesmo se supormos que possa haver uma tendência persistente de longo prazo em direção ao equilíbrio geral, devemos admitir que existe, outrossim, uma tendência de curto e longo prazo em direção à persistência do desequilíbrio.

Esse desequilíbrio não é só produto de uma tendência entre os empreendedores de aumentar ou reduzir a produção em resposta aos sinais do mercado e do lucro, ou tomar decisões equivocadas, mas também porque empreendedores individuais, longe de darem apenas respostas automáticas, estão constantemente adquirindo novos conhecimentos, detectando novas oportunidades, mudando métodos, reduzindo custos de produção, melhorando produtos, inovando – em resumo, lançando produtos e invenções totalmente revolucionárias. Da mesma forma, os consumidores estão aprendendo constantemente, mudando seus gostos e demandando novos produtos para o atendimento de novas necessidades. Assim, os economistas austríacos raramente falam de equilíbrio de mercado, mas do processo de mercado.

Minha própria suspeita é que a enorme atenção hoje dedicada a estipular as condições matemáticas de “equilíbrio geral” seja a busca do fogo-fátuo, de ajuda questionável na resolução de qualquer problema econômico.

Mas o curto espaço me proíbe de me ater aos contrastes. Permitam-me resumir as principais teses austríacas novamente, dessa vez não em minhas próprias palavras ou nas de Menger, mas naquelas de dois “austríacos” proeminentes.

“Começando na Viena de 1870”, escreve o professor Kirzner, “a escola se distinguia por sua ênfase nos elementos subjetivos da analise econômica, na importância do elemento tempo nos processos de produção, e no papel da tentativa e da incerteza no fenômeno econômico” (grifo dele).

O resumo do Professor Lachmann é muito similar: “a primeira e mais importante característica da economia austríaca é seu subjetivismo radical, hoje não mais confinado às preferências humanas, mas estendido às expectativas humanas […]. Segundo, a economia austríaca é extremamente consciente das muitas facetas do tempo envolvidas na rede complexa de relações interindividuais […]. Na revolução subjetiva dos anos 1870, o primeiro passo em direção ao subjetivismo foi dado quando se percebeu que o valor, longe de ser intrínseco aos bens, constitui uma relação entre uma mente avaliadora e o objeto de sua avaliação”.

Todo o resto da economia austríaca segue desses insights básicos. Permitam-me concluir com minha própria opinião que qualquer análise econômica que falha em incorporar tais insights não pode ser totalmente sólida.


[5] Understanding “Austrian” Economics. Silver and Gold Report, Newtown, Connecticut, 1981.

[6] MENGER, Carl. Princípios de economia política. São Paulo: Editora Abril, 1983. p. 279.

[7] MENGER, Carl. Princípios de economia política. São Paulo: Editora Abril, 1983. p. 287.

[8] MENGER, Carl. Princípios de economia política. São Paulo: Editora Abril, 1983. p. 304.

[9] MENGER, Carl. Princípios de economia política. São Paulo: Editora Abril, 1983. p. 304.

[10] MENGER, Carl. Princípios de economia política. São Paulo: Editora Abril, 1983. p. 305.

[11] MENGER, Carl. Princípios de economia política. São Paulo: Editora Abril, 1983. p. 378.

4. O problema da pobreza

A história da pobreza é, de certa forma, a história da humanidade. Os antigos autores nos deixaram alguns relatos específicos sobre ela. Eles a tomavam como certa. A pobreza era a condição natural.[12]

O mundo antigo greco-romano, como reconstruído pelos historiadores modernos, era composto de casas sem chaminés que, no inverno, eram aquecidas por uma lareira ou um tacho no meio da casa, o que, por sua vez, gerava fumaça que escurecia paredes, teto e móveis já cobertos pelas cinzas; onde a luz era provida por lamparinas a óleo que, tal qual as casas onde eram usadas, não tinham chaminés e cujo resultado já não era dos melhores devido à fumaça densa que se formava. As moradias gregas não tinham aquecimento no inverno e, muito menos, qualquer tipo de instalação sanitária.[13]

Acima de tudo, havia fome e miséria, tão crônicas que apenas os piores exemplos foram registrados. Aprendemos na Bíblia como José aconselhou os faraós sobre as medidas de alívio da fome no Egito antigo. Na fome em Roma em 436 a.C., milhares de pessoas famintas se jogaram no Rio Tibre.

Na Idade Média, as condições não eram muito melhores.

As moradias dos servos medievais eram casebres – as paredes feitas de algumas tábuas cimentadas com lama e folhas. Juncos, cana ou urze formavam a base do teto para o telhado. Internamente, as casas tinham um único quarto, ou, em alguns casos, dois, sem reboco e, muito menos, piso, teto, chaminé, lareira ou cama – e aí o proprietário, sua família e seus animais nasciam e morriam. Não havia sistema de esgoto para as casas, nem saneamento básico, exceto a drenagem do solo nas ruas, nenhum fornecimento de água além daquele provido pela bomba municipal, e nenhum conhecimento das formas mais básicas de saneamento. Trigo era a base do alimento e da bebida de grande parte da população europeia […]. Precariedade de moradia, alternância entre abundância e miséria, secas, escassez, fomes, crime, violência, varíola, escorbuto, lepra, febre tifoide, guerras, pestilências e praga – faziam parte da vida medieval a tal nível sem correspondência com o mundo ocidental dos dias atuais.[14]

Fomes frequentes

E um tema sempre recorrente era a fome:

Nos séculos XI e XII, a fome [na Inglaterra] era registrada, em média, a cada 14 anos, e as pessoas sofreram 20 anos de fome em 200 anos. No século XIII, o registro exibe a mesma proporção de fome; a ocorrência de preços altos tornaram a proporção ainda maior. Como um todo, a escassez diminuiu durante os três séculos seguintes; contudo, a média de 1201 a 1600 é a mesma, a saber, sete fomes e dez anos de fome em um século.[15]

Um escritor organizou um resumo detalhado de 22 fomes no século XIII nas Ilhas Britânicas, com entradas como: “1235: fome e praga na Inglaterra; 20 mil pessoas mortas em Londres; pessoas comem carne de cavalo, cascas de árvores, grama, etc.”[16]

Contudo, a fome recorrente percorre toda a história humana. A Enciclopédia Barsa lista 31 grandes fomes dos tempos antigos até 1960. Primeiro, analisemos aquelas da Idade Média até o final do século XVIII:

1005: fome na Inglaterra. 1016: fome em toda a Europa. 1064–72: sete anos de fome no Egito. 1148–59: 11 anos de fome na Índia. 1344–45: grande fome na Índia. 1396–1407: a fome de Durga Devi na Índia, durante 12 anos. 1586: fome na Inglaterra, dando origem ao sistema da Lei dos Pobres. 1661: fome na Índia; nenhuma chuva por dois anos. 1769–1770: grande fome em Bengala – um terço da população – 10 milhões de pessoas – morreram. 1783: a fome de Chalise na Índia. 1790–92: o Deji Bara, ou fome dos crânios na Índia, assim chamada porque os mortos eram muitos para serem enterrados.[17]

Essa lista é muito incompleta – como, provavelmente, qualquer lista. Na França, por exemplo, no inverno de 1709, mais de um milhão de pessoas morreram, de acordo com os dados da época, de uma população de 20 milhões.[18] No século XVIII, a França sofreu oito fomes, culminando nas colheitas ruins de 1788, que foram uma das causas da Revolução.

Peço desculpas por me aprofundar em tal miséria humana. Eu o faço apenas porque a fome em massa é a forma mais óbvia e intensa de pobreza, e essa crônica é necessária para nos recordar das dimensões terríveis e da persistência do mal.

Thomas R. Malthus

Em 1798, Thomas R. Malthus, um pastor inglês, explorando essa triste história, publicou anonimamente um ensaio chamado Essay on the Principles of Population as it Affects the Future Improvement of Society (Ensaio sobre o princípio da população e como afeta o melhoramento futuro da sociedade). Sua doutrina central era a de que existe uma tendência constante de crescimento populacional acima da oferta e produção de alimentos. A menos que limitada por autorrestrição, a população sempre se expandirá até o limite da subsistência, e lá ficará devido a doenças, guerra e, por fim, fome. Malthus era um pessimista econômico, vendo a pobreza como o destino inescapável do homem. Ele influenciou Ricardo e outros economistas clássicos de seu tempo, e foi o tom geral de seus escritos que levou Carlyle a chamar a economia política de “ciência sombria”.

Na verdade, Malthus tinha revelado uma verdade de importância milenar. Sua obra primeiro estabeleceu uma cadeia de raciocínio que levou à promulgação da teoria da evolução por seleção natural. Não obstante, Malthus superestimou seu caso e se negou a fazer algumas qualificações essenciais. Ele falhou em ver que, tão logo os homens de qualquer lugar (ocorreu em sua própria Inglaterra) tivessem êxito em poupar um pouco do excedente, mesmo sendo uma acumulação modesta de capital, vivendo em uma era de liberdade política e proteção à propriedade, sua indústria, pensamento e invenção livres possibilitariam, por fim, multiplicar muito e celeradamente a produção per capita além de qualquer nível alcançado ou sonhado no passado. Malthus anunciou suas conclusões pessimistas exatamente em uma época em que seriam totalmente desmentidas.

A Revolução Industrial tinha começado, mas ninguém ainda a tinha reconhecido ou nomeado. Uma das consequências do aumento da produção gerado por ela foi possibilitar um aumento sem paralelo na população. A população da Inglaterra e do País de Gales em 1700 era de 5,5 milhões; em 1750, tinha alcançado 6,5 milhões. Quando o primeiro censo foi feito em 1801, era de 9 milhões; em 1831, tinha alcançado 14 milhões. Na segunda metade do século XVIII, a população tinha aumentado em 40% e, nas primeiras três décadas do século XIX, em mais de 50%. Isso não foi resultado de uma mudança marcante na taxa de natalidade, mas de uma queda contínua na taxa de mortalidade.[19] As pessoas estavam produzindo a oferta de alimentos e outros meios necessários para suportar o crescimento populacional?

Esse crescimento populacional acelerado continuou. O enorme salto adiante da população mundial no século XIX foi sem precedentes na experiência humana. “Em menos de um século, a humanidade somou mais ao seu número total que tinha sido capaz de adicionar nos milhões de anos anteriores.”[20]

Fome em tempos recentes

Mas estamos nos adiantando na história. Estamos preocupados com a longa história da pobreza e da fome humanas em vez de prover uma curta história de como a humanidade começou a sair dela. Permitam-me voltar à crônica de fomes, dessa vez, desde o início do século XIX:

1838: fome intensa em Uttar Pradesh, Índia; 800 mil morreram. 1846–47: fome na Irlanda, resultante do fracasso da colheita da batata. 1861: fome no nordeste da Índia. 1866: fome em Bengal e Orissa; 1 milhão de pessoas morreram. 1869: fome intensa em Rajputana; 1,5 milhão pereceram. 1874: fome em Bihar, Índia. 1876–78: fome em Bombay, Madras e Mysore; 5 milhões pereceram. 1877–78: fome no norte da China; 9,5 milhões disseram ter perecido. 1887–89: fome na China. 1891–92: fome na Rússia. 1897: fome na Índia; 1 milhão de pessoas pereceram. 1905: fome na Rússia.

1916: fome na China. 1921: fome na URSS, causada pelas políticas econômicas comunistas; pelo menos 10 milhões de pessoas pareciam condenadas a morrer, até que a American Relief Administration, dirigida por Herbert Hoover, interviu e reduziu as mortes diretas de cerca de 500 mil. 1932–1933: fome novamente na URSS, gerada pelas políticas agrárias coletivistas; “milhões de mortes”. 1943: fome em Bengal, cerca de 1,5 milhão de pessoas morreram. 1960–1961: fome no Congo.[21]

Industrialização evita a fome no mundo ocidental

Podemos levar essa triste história à atualidade ao mencionar as fomes recentes na China comunista, bem como a fome de 1968–1970 gerada pela guerra em Biafra.

O histórico de fomes desde o final do século XVIII revela, todavia, uma diferença fundamental do registro feito até aqui. A fome em massa não acometeu em um único país industrializado do Ocidente. (A única exceção é a Grande Fome na Irlanda, e mesmo essa é uma exceção duvidosa porque a Revolução Industrial praticamente mal havia tocado a Irlanda da metade do século XIX, que ainda era um país agrícola de uma única cultura.)

Não é o caso de que, de repente, cessaram as secas, as pestes, as doenças agrícolas e as colheitas fracassadas no mundo ocidental, mas que, quando ocorrem, a sua consequência não é a fome, pois os países afetados são capazes de importar comida rapidamente do exterior, e isso não só porque os meios de transporte modernos permitem, mas porque, através de sua produção industrial, eles têm os meios para pagar por tais alimentos.

Em outras palavras, no mundo ocidental, pobreza e fome – até a metade do século XVIII a condição normal da humanidade – têm sido reduzidas a um problema residual que afeta apenas uma minoria; e tal minoria está sendo drasticamente reduzida diariamente.

Mas a pobreza e a fome que ainda prevalecem no resto do mundo, em alguns países da Ásia, da América Central, da América Latina e da África – em resumo, afligindo boa parte da humanidade – mostram as dimensões aterradoras dos problemas ainda a serem resolvidos.

E o que aconteceu e ainda acontece em muitos países hoje serve para nos alertar do quão relativamente fácil é destruir todo o progresso econômico que já tinha sido alcançado. Interferências governamentais descabidas levaram a Argentina, certa vez o principal produtor e exportador de carne, a proibir, em 1971, até mesmo a venda doméstica de carne em semanas alternadas. A Rússia Soviética, que tinha como um dos principais problemas econômicos antes de ser comunizada encontrar um mercado exportador para seu amplo superávit de grãos, tem sido forçada a importar grãos de países capitalistas. Poderia citar muito mais exemplos, com consequências desastrosas, causados por políticas governamentais imediatistas.

Mais de trinta anos atrás, E. Parmalee Prentice já destacava que a humanidade tem acabado com a necessidade tão rapidamente que os filhos não sabem como seus pais viveram:

De fato, essa é uma explicação da insatisfação com as condições de vida tão comumente observada, dado que homens que nunca conheceram tal necessidade como a vivida por tantos séculos sejam incapazes de valorizar em sua plenitude a abundância atual e são infelizes porque ela não é maior.[22]

Quão profética era a atitude da juventude revoltada dos anos 1970! O grande perigo atual é que a impaciência e a ignorância podem se combinar para destruir em uma única geração o progresso que demandou diversas gerações para ser alcançado.

“Quem não consegue se lembrar do passado está condenado a repeti-lo.”


[12] Problem of Poverty. The Freeman. Irvington-on-Hudson, NY, June 1971.

[13] PRENTICE, E. Parmalee. Hunger and History. Harper & Bros., 1939. p. 39–40.

[14] PRENTICE, E. Parmalee. Hunger and History. Harper & Bros., 1939. p. 15–16.

[15] FARR, William. The Influence of Scarcities and of the High Prices of Wheat on the Mortality of the People of England. Journal of the Royal Statistical Society, v. IX, p. 158, Feb. 16, 1846.

[16] WALFORD, Cornelius. The Famines of the World. Journal of the Royal Statistical Society, v. 41, p. 433, Mar. 19, 1878.

[17] Artigo “Famine”, 1965.

[18] BOUTHOUL, Gaston. La population dans la monde. p. 142–143.

[19] ASHTON, T. S. The Industrial Revolution (1760–1830). Oxford University Press, 1948. p. 3–4.

[20] FAIRCHILD, Henry Pratt. When Population Levels Off. Harper’s Magazine, v. 176, p. 596, May 1938.

[21] Das entradas “fome” e “Rússia”. Encyclopedia Britannica, 1965.

[22] PRENTICE, E. Parmalee. Hunger and History. Harper & Bros., 1939. p. 236.

5. Falsas soluções para a pobreza

Desde o início da história, tanto reformadores sinceros como demagogos buscaram abolir ou, pelo menos, aliviar a pobreza através da ação estatal. Na maioria dos casos, as soluções que propuseram só serviram para piorar as coisas.[23]

A solução mais popular tem sido aquela de tirar dos ricos e dar aos pobres. Essa solução tomou milhares de formas, mas se resumem a isto: a riqueza deve ser “compartilhada”, “redistribuída” ou “equalizada”. Na verdade, na mente de muitos reformadores, a pobreza não é o problema principal, mas, sim, a desigualdade.

Esses esquemas de redistribuição direta (incluindo “reforma agrária” e “renda garantida”) são tão relevantes para o problema da pobreza que merecem tratamento especial. Aqui devo me contentar com lembrar o leitor de que todos os esquemas em prol da redistribuição ou equalização de renda ou riqueza devem necessariamente enfraquecer ou destruir incentivos em ambos os extremos da escala econômica. Eles devem reduzir ou abolir os incentivos dos incapacitados e estagnados para melhorar sua condição por seus próprios esforços, e mesmo os hábeis e industriosos verão pouco sentido em receber qualquer coisa além do que lhes é permitido manter. Esses esquemas de redistribuição devem inevitavelmente reduzir o tamanho do bolo a ser redistribuído. Eles só podem igualar as coisas por baixo. Seu efeito de longo prazo deve ser a redução da produção, levando, necessariamente, ao empobrecimento nacional.

O problema que enfrentamos aqui é que as falsas soluções para a pobreza são quase infinitas em número. Uma tentativa completa de refutá-las tomaria milhares de páginas. Mas algumas dessas falsas soluções são tão amplamente consideradas curas reais ou mitigações da pobreza que, se eu não tratá-las, posso ser acusado de ter me dedicado a uma análise detalhada das soluções, embora tenha ignorado algumas das mais óbvias.

O que eu deveria fazer é endereçar algumas das mais populares “soluções” para a pobreza e indicar brevemente, caso a caso, a natureza de suas falhas ou as principais falácias envolvidas nelas[24].

Sindicatos e greves

A “solução” mais amplamente praticada para o problema dos salários nos últimos dois séculos tem sido a formação de sindicatos laborais monopolistas, bem como o uso da ameaça de greve. Praticamente em todo país isso tem sido possível em sua extensão atual devido a políticas governamentais que permitem e encorajam táticas sindicalistas coercivas enquanto restringem ou punem medidas opostas dos empregadores. Como resultado do sindicato monopolizado, da ineficiência deliberada, da proteção de interesses escusos, de greves disruptivas ou ameaças de greve, o efeito de longo prazo das políticas sindicalistas tem sido desencorajar o investimento em capital, tornando o salário médio real de todo o conjunto de trabalhadores mais baixo, e não mais alto, do que de outra forma teria sido.

Praticamente todas essas políticas sindicalistas têm sido totalmente imediatistas. Quando os sindicatos insistem no emprego de homens que não são necessários para fazer um trabalho (exigindo bombeiros desnecessários em locomotivas a diesel; proibindo a redução do número de estivadores para, digamos, 20 homens, sem importar o tamanho da tarefa; demandando que as impressoras de um jornal dupliquem o número de anúncios que já vêm estipulado na diagramação, etc.), o resultado deve ser preservar ou criar alguns poucos novos empregos para homens específicos no curto prazo, mas apenas ao custo de tornar impossível a criação de um número equivalente ou maior de empregos mais produtivos para outros.

A mesma crítica se aplica à política centenária dos sindicatos de se opor ao uso de maquinários. Maquinário que reduz a mão de obra só é instalado quando há promessa de redução de custos de produção. Quando isso ocorre, há redução de preços e elevação das vendas das commodities produzidas, ou gera mais lucros disponíveis para reinvestimento crescente em outro tipo de produção. Em ambos os casos, seu efeito de longo prazo é substituir empregos menos produtivos, que são eliminados, por empregos mais produtivos. Ainda assim, em 1970, surgiu um livro, publicado por um escritor com grande reputação como economista em alguns setores, opondo-se à introdução de maquinários que economizam mão de obra nos países subdesenvolvidos sob o argumento de que eles “diminuem a demanda por trabalho”![25] A conclusão natural disso seria que a única forma de maximizar empregos é tornar toda a mão de obra tão ineficiente e improdutiva quanto possível.

Remuneração de horas extras

Um julgamento similar deve ser feito sobre esquemas de “expansão do emprego”. A lei federal do salário-hora foi promulgada há anos. Ela diz que o empregador deve pagar uma multa de 50% por hora extra para todas as horas trabalhadas além das 40 semanais, não importando quão elevado seja o valor normalmente pago pela hora trabalhada.

Essa provisão foi inserida pela insistência dos sindicatos. Seu propósito era tornar tão custoso para o empregador pedir que seus empregados fizessem hora extra que ele seria obrigado a contratar trabalhadores adicionais.

A experiência mostra que a provisão teve, na verdade, o efeito de restringir minimamente a duração da semana laboral. No período de dez anos, de 1960 a 1969, a média da semana laboral na manufatura variou entre 39,7 horas em 1960 e um máximo de 41,3 horas em 1966. Mesmo mudanças mensais não apresentam muita variação. A semana laboral média mais curta na manufatura nos 14 meses de junho de 1969 a julho de 1970 foi de 39,7 horas e a maior foi de 41 horas.

Mas a verdade é que a restrição horária não criou mais empregos de longo prazo nem gerou salários totais mais altos do que haveria existido sem a multa compulsória de 50% sobre horas extras. Sem dúvida, em casos isolados, mais homens foram empregados que de outra forma. Mas o principal efeito da lei da hora extra tem sido o aumento dos custos de produção. Firmas que já trabalhavam dentro do máximo tempo padrão frequentemente têm de recusar novos pedidos porque não podem pagar a “multa” necessária para produzir tais pedidos. Elas não conseguem contratar novos empregados para atender o que poderia ser tão só uma demanda temporariamente maior porque teriam de instalar um número equivalente de maquinários adicionais.

Custos de produção mais elevados significam preços maiores. Devem, portanto, significar mercados menores e vendas menores, bem como menos bens e serviços. No longo prazo, os interesses de todo o conjunto de trabalhadores deve ser negativamente afetado por multas compulsórias como essas.

Tudo isso não quer dizer que devem existir semanas laborais mais longas, mas sim que a duração da semana laboral e o valor da hora extra devem ser decididos por acordo voluntário entre trabalhadores individuais ou sindicatos e as empresas. De qualquer forma, restrições legais à duração da semana laboral não podem no longo prazo aumentar o número de empregos. Embora consigam tal feito no curto prazo, isso se dá necessariamente à custa da produção e da renda real de todo o conjunto dos trabalhadores.

Lei do salário mínimo

Isso nos leva ao tema das leis do salário mínimo. É profundamente desencorajador que, na segunda metade do século XX, em uma era de suposta sofisticação econômica, os Estados Unidos ainda tenham leis assim em seus livros e que ainda seja necessário protestar contra uma ideia tão fútil e confusa. Os trabalhadores que ela supostamente deveria ajudar são os mais prejudicados.

Aqui só posso repetir o que foi dito em outro momento.[26] Quando existe uma lei que diz que ninguém pode receber menos que US$ 64 por 40 horas trabalhadas, então, ninguém cujo serviço não valha US$ 64 por semana estaria empregado. Não podemos fazer um homem valer X ao tornar ilegal que alguém lhe pague menos por seu trabalho. Nós apenas estamos privando-o do direito de receber a quantia equivalente às suas habilidades e às oportunidades que permitiriam que ganhasse isso, enquanto privamos a comunidade de serviços moderados que ele é capaz de prestar. Em resumo, substituímos o desemprego por um salário menor.

Mas eu não posso dedicar mais espaço a esse tópico aqui. Eu prefiro referir o leitor ao raciocínio cuidadoso e a estudos estatísticos de economistas como os professores Yale Brozen, Arthur Burns, Milton Friedman, Gottfried Haberler e James Tobin, que têm enfatizado, por exemplo, quanto o crescimento de nosso salário mínimo tem aumentado o desemprego nos anos recentes, especialmente entre os adolescentes negros.

O pesado fardo dos planos previdenciários e dos tributos

Em quase todos os países do mundo, no século passado, foi promulgado um grande pacote de “medidas sociais”, a maioria delas com o pretenso propósito de “ajudar os pobres” de alguma forma. Essas incluem não só auxílio direto, mas seguro-desemprego, aposentadorias, auxílio-doença, cupons de alimentos, auxílio-aluguel, auxílio-agrícola, auxílio a veteranos – em uma profusão praticamente sem fim. Muitas pessoas recebem não só um, mas vários desses subsídios. Normalmente, esses programas se sobrepujam ou se repetem.

Qual é o seu efeito líquido? Todos eles devem ser pagos por aquele homem cronicamente esquecido: o pagador de impostos. Em talvez metade dos casos, Paulo está, de fato, pagando seus próprios benefícios, ganhando nada em troca (exceto que é forçado a gastar seu dinheiro em coisas diferentes das que ele teria escolhido). Nos casos restantes, Pedro é forçado a pagar os benefícios de Paulo. Quando qualquer um desses esquemas, ou alguma expansão deles, é proposto, seus patrocinadores políticos sempre refletem sobre o que um governo generoso e compassivo deveria pagar a Paulo; eles se esquecem de mencionar que essa renda adicional deve ser tirada de Paulo. Para Paulo receber o equivalente a mais do que ganha, Pedro terá de ficar com menos que recebe.

O peso crescente da tributação não só reduz os incentivos individuais a trabalho e salários maiores, mas, além disso, desencoraja de diversas formas a acumulação de capital e distorce, desequilibra e reduz a produção. A riqueza e a renda reais totais ficam menores do que de qualquer outra forma. No final das contas, há mais – e não menos – pobreza.

Contudo, a tributação crescente é tão impopular que a maioria desses esquemas de distribuição “social” são originalmente propostos sem tributação crescente para bancá-los. O resultado são déficits governamentais crônicos, pagos pela emissão adicional de moeda. E isso levou, nos últimos 25 anos, à depreciação constante do poder de compra de praticamente todas as moedas do mundo. Todos os credores, incluindo os compradores de títulos governamentais, detentores de apólices de seguro e depositantes na poupança são sistematicamente trapaceados. Mais uma vez, as principais vítimas são as famílias trabalhadoras e poupadoras com rendas medianas.

Ainda assim, essa inflação monetária, às vezes tão destrutiva e ruinosa à produção equilibrada, é racionalizada por políticos e mesmo por supostos especialistas econômicos como necessária para o “pleno emprego” e o “crescimento econômico”. A verdade é que, se essa inflação monetária persistir, só poderá levar ao desastre econômico.

Controles de preços e salários

Muitas das pessoas que primeiro defendem a inflação (ou as políticas que, inevitavelmente, levam a ela), ao verem suas consequências de aumento de preços e salários nominais, propõem curar a situação não a combatendo, mas exigindo que o governo imponha controles de preços e salários. Contudo, todas essas tentativas de suprimir os sintomas aumentam muito o dano causado. Controles de preços e salários, embora possam ser temporariamente efetivos, só distorcem, atrapalham e reduzem a produção – novamente, levando ao empobrecimento geral.

Aqui, novamente, como com qualquer outra solução falsa para a pobreza, seria uma digressão injustificável detalhar todas as falácias e consequências malignas de subsídios especiais, gastos governamentais improvidentes, financiamento via déficit, inflação monetária e controles de preços e salários. Eu mesmo tratei desses tópicos em dois livros The Failure of the New Economics (O fracasso da Nova Economia)[27] e What You Should Know About Inflation (O que você deveria saber sobre a inflação)[28]; e existe, é claro, uma extensa literatura no tema. O ponto principal a ser reiterado aqui é que essas políticas não ajudam a curar a pobreza.

Outra falsa solução para a pobreza é o imposto de renda progressivo, bem como os tributos sobre ganhos de capital, de herança e de rendimentos das sociedades. Todos eles têm o efeito de desencorajar produção, investimento e acumulação de capital. Nesse sentido, prolongam em vez de curar a pobreza.

Socialismo absoluto

Chegamos a última solução falsa para a pobreza a ser considerada nesse artigo: o socialismo absoluto.

Hoje, a palavra “socialismo” é usada livremente em referência a, pelo menos, duas propostas distintas, comuns, mas não necessariamente conectadas nas mentes de seus proponentes. Uma delas é a redistribuição de renda ou riqueza – se não para nos tornar mais iguais, pelo menos para nos tornar muito mais iguais que em uma economia de mercado. Mas a maioria dos que propõem esse objetivo hoje acham que pode ser alcançado ao conservar os mecanismos da propriedade privada e, então, tributar as rendas maiores para subsidiar as rendas menores.

Por “socialismo absoluto” refiro-me à proposta marxista de “propriedade e gestão públicas dos meios de produção”.

Uma das diferenças mais gritantes entre as décadas de 1970 e 1950, ou mesmo 1920, é o aumento da popularidade política do Socialismo 2.0 – a redistribuição de renda – e o declínio da popularidade política do Socialismo 1.0 – propriedade e gestão públicas. A razão é que o Socialismo 1.0, no último século, foi muito tentado e falhou. Na Europa, em particular, hoje existe um longo registro de propriedade e gestão públicas de “serviços públicos” como ferrovias, indústrias de energia, telégrafo e telefonia. E a história se repete: financiamento via déficits e serviços de má qualidade em comparação à experiência privada. O serviço postal, monopólio governamental em muitos países, é notoriamente conhecido por seus déficits, sua ineficiência e inércia (o contraste com o desempenho da iniciativa privada é frequentemente distorcido devido, por exemplo, às regulamentações e exigências governamentais).

Como resultado desse histórico, a maioria dos partidos socialistas na Europa notam que não conseguem mais atrair votos com a promessa de nacionalizar ainda mais indústrias. Mas o que ainda não é reconhecido pelos socialistas, pelo público ou mesmo por mais que uma pequena minoria de economistas, é que a propriedade e gestão públicas de indústrias, não só na Europa “capitalista”, mas também na União Soviética, funcionam apenas tão bem porque são parasitárias da contabilidade dos preços de mercado do mundo estabelecidos pela propriedade privada.

Muito é tomado como certo

Nós estamos tão acostumados com o milagre da iniciativa privada que habitualmente o tomamos como certo. Mas como a indústria privada resolve o problema incrivelmente complexo de produzir dezenas de milhares de bens e serviços diferentes em proporções em que são demandados pelo público? Como alguém decide quantos pães produzir e quantos casacos, quantos martelos e quantas casas, quantos alfinetes e quantos Pontiacs, quantas colheres de chá e quantos telefones? E como se resolve o problema não menos complexo que é determinar os métodos mais econômicos e eficientes de produção desses bens?

Ele resolve esses problemas através de instituições como a propriedade privada, o livre mercado e a existência do dinheiro – por meio das inter-relações de oferta e demanda, custos e preços, lucros e perdas.

Quando sapatos estão com oferta reduzida em comparação com o seu custo marginal de produção, o seu preço e, portanto, a margem de lucro de sua produção aumentarão com relação ao preço e à margem de lucro na produção de outras coisas. Portanto, os fabricantes existentes produzirão mais calçados e, talvez, novos fabricantes comprarão maquinários para produzi-los. Quando a nova oferta alcançar a demanda existente, o preço dos sapatos, assim como o lucro de sua produção, cairá; a oferta não crescerá mais. Quando chapéus saem de moda e são menos usados, seu preço cai e alguns ficam nas prateleiras. Menos chapéus serão feitos. Alguns fabricantes sairão do negócio, e o capital e o trabalho previamente salvável dedicados à produção de chapéus serão realocados para outras linhas de produto. Assim, há uma tendência constante em direção à equalização das margens de lucro (riscos comparativos considerados) em todas as linhas de produção. Essas mudanças anuais, sazonais ou diárias de oferta e demanda, custo e preço e margens comparativas de lucro tenderão a manter um equilíbrio delicado, mas constantemente mutável, na produção de dezenas de milhares de serviços e commodities diferentes nas proporções demandadas pelos consumidores.

O papel da concorrência

O mesmo guia de preços comparativos em moeda e lucros também decidirá os tipos e as proporções de bens de capital que serão produzidos, assim como qual das centenas de possíveis métodos diferentes de produção serão adotados em cada caso.

Além disso, dentro de cada indústria bem como entre indústrias, a concorrência assumirá o controle. Cada produtor não só estará tentando fazer um produto melhor que o de seus concorrentes, um produto com mais apelo aos compradores, mas também tentará reduzir seu custo de produção tanto quanto possível de modo a aumentar sua margem de lucro – ou talvez, mesmo, se seus custos já forem mais altos que a média, igualar-se à sua concorrência e permanecer no negócio. Isso significa que a concorrência sempre tenderá a gerar o método de produção menos custoso – em outras palavras, o método de produção mais econômico e eficiente.

Os mais exitosos nessa concorrência adquirirão mais capital para aumentar sua produção ainda mais; os que forem menos exitosos serão empurrados para fora do mercado. Logo, a produção capitalista tende constantemente a ser direcionada às mãos dos mais eficientes.

Mas como pode esse problema aparentemente complexo de fornecimento de bens nas proporções demandadas pelos consumidores, e com os métodos de produção mais econômicos, ser resolvido se as instituições do capitalismo – propriedade privada, concorrência, livre mercado, moeda, preços, lucros e perdas – não existem?

O problema desconcertante do cálculo econômico

Suponhamos que toda a propriedade – pelo menos, dos meios de produção – fosse tomada pelo Estado e que bancos, moeda e crédito fossem abolidos como instituições capitalistas malignas. Como o governo resolveria o problema de quais bens e serviços produzir, em que quantidades, em que proporções, em que locais e por quais métodos tecnológicos?

Não pode haver, tenhamos em mente, cem ou mil decisões diferentes por quaisquer burocratas diferentes, cada qual decidindo de forma independente o quanto de um dado produto deve ser feito. A quantidade disponível de terra, capital e trabalho será sempre limitada. Os fatores de produção necessários para produzir A não estão disponíveis, portanto, para B ou C, e assim por diante. Deve haver uma única decisão geral unificada, com as quantidades e proporções relativas a serem feitas por cada commodity, todas planejadas com antecedência em relação a todas as outras, e com os fatores de produção todos alocados nas proporções correspondentes.

Logo, deve haver um único plano-mestre de produção. Isso poderia ser adotado pelo voto majoritário em um parlamento, mas, na prática, para evitar debates intermináveis e pô-lo em prática, as decisões mais amplas seriam feitas por um pequeno grupo de homens, e a execução detalhada provavelmente seria repassada para um Diretor Mestre que teria a palavra final.

Como ele resolveria tal problema?

Devemos ter em mente que, sem mercados, moeda e preços competitivos no mercado, ele não teria esperanças de êxito. Saberíamos, é claro (se a tomada dos meios de produção tivesse ocorrido recentemente), que as pessoas sob o sistema capitalista viviam em um determinado número de casas de qualidades variadas, vestiam uma certa quantidade de roupas consistindo de tais e tais itens e qualidade, comiam certo tipo de comida em um mix de carne, laticínios, grãos, vegetais, nozes, frutas e bebidas. O diretor poderia simplesmente tentar continuar com esse mix preexistente indefinidamente. Mas, então, suas decisões seriam completamente parasíticas do capitalismo anterior, e ele produziria e perpetuaria uma economia totalmente estacionária ou estagnada. Se tal socialismo imitador tivesse sido colocado em prática, digamos, na França de 1870 ou mesmo de 1770 ou 1670, e a França tivesse sido excluída dos acordos internacionais, a economia da França estaria ainda produzindo o mesmo tipo e quantidade per capita de bens e serviços, e pelos mesmos métodos antiquados, como aqueles que tinham existido em 1870, ou mesmo em 1770 ou 1670, ou seja qual fosse o ano inicial da socialização.

É totalmente provável que, mesmo se tal esquema de produção servilmente imitador fosse deliberadamente adotado, ele negligenciaria milhares de pequenos itens, muitos dos quais essenciais, porque algum burocrata se esqueceria de colocar no cronograma. Isso aconteceu milhares de vezes na União Soviética.

O que deve ser produzido?

Suponhamos, pelo bem da discussão, que todos esses problemas fossem, de alguma forma, resolvidos. Como os planejadores socialistas poderiam tentar melhorar a produção capitalista? Suponhamos que tenham decidido aumentar a quantidade e a qualidade das moradias. Como a produção total é necessariamente limitada pelo conhecimento tecnológico e dotação de capital existentes, eles poderiam transferir terra, capital e trabalho para a produção de tais moradias apenas ao custo de produzir menos alimentos, roupas ou hospitais, escolas, carros, estradas ou qualquer outra coisa. Como poderiam decidir o que deveria ser sacrificado? Como estabeleceriam as novas proporções de commodities?

Mas deixando de lado mesmo esse problema formidável, como os planejadores decidiriam quais máquinas projetar, que bens capitalistas produzir, que métodos tecnológicos usar, e em quais lugares, para produzir os bens de consumo demandados e nas proporções esperadas?

Essa não é uma questão primariamente tecnológica, mas econômica. O propósito da vida econômica, o propósito de produzir qualquer coisa, é aumentar a satisfação humana, aumentar o bem-estar humano. Em um sistema capitalista, se as pessoas não estiverem dispostas a pagar, pelo menos, os custos referentes a trabalho, terra, equipamentos e matéria-prima utilizados em sua produção, é um sinal de que a produção foi mal conduzida e que alguns desses fatores produtivos foram perdidos. Houve um decréscimo, em vez de um aumento, líquido no bem-estar humano.

Existem diversos métodos viáveis – cadinho, Bessemer, forno aberto, forno elétrico, forno básico a oxigênio – de produzir aço a partir do ferro. Na verdade, existem hoje milhares de formas tecnicamente viáveis de produzir coisas de qualquer outra coisa. Em um sistema de livre iniciativa, quem decide qual método será usado no tempo e lugar é a comparação de custos potenciais.

E isso significa necessariamente custos em termos de moeda. Para comparar a eficiência econômica de métodos produtivos, eles devem ser reduzidos a um denominador comum, pois, de outra forma, a comparação e o cálculo econômico são impossíveis. No sistema de mercado, o denominador comum é alcançado por comparações em termos de moeda e preços informados em moeda. É o único meio pelo qual a sociedade pode determinar se uma dada commodity está sendo produzida com lucro ou perda, ou com que nível de lucro ou perda um número de commodities diferentes está sendo produzido.

“Brincando” de capitalismo

Nos últimos anos, mesmo os países mais rigidamente comunistas se deram conta disso. De agora em diante, dizem eles, se guiarão por lucros e perdas. Uma indústria deve ser lucrativa para se justificar. Logo, eles fixam preços para tudo e medem o lucro e a perda em termos monetários. Mas isso é apenas “brincar” de livre mercado. Isso é “brincar” de capitalismo. Essa imitação é uma adulação inconsequente que os comunistas propõem a um sistema que ainda rejeitam e denunciam ostensivamente.

Mas a razão pela qual esse sistema de mercado falsificado se provou tão frustrante é que os governos comunistas não sabem como estabelecer preços. Qualquer sucesso que possam ter tido foi ao usar as cotações que já encontravam nos mercados internacionais de commodities nos mercados especulativos – isto é, nos mercados capitalistas – no mundo ocidental. Mas existe um número limitado de grãos e matérias-primas nos mercados internacionais. De qualquer forma, seus preços mudam diariamente, e são sempre para grãos específicos, em locais específicos.

Ao tentar fixas preços para commodities e vários objetos não cotados nesses mercados internacionais, os países comunistas ficam isolados. A teoria do valor-trabalho de Marx é falsa e, portanto, inútil para eles. Não podemos medir o valor de nada pelo número de horas “trabalhadas” nele. Existem diferenças enormes na habilidade, qualidade e produtividade do trabalho de pessoas diferentes. Tampouco podemos, como sugerido por alguns economistas soviéticos, basear preços em “custos de produção atuais”. Custos de produção são, eles próprios, preços – os preços de matérias-primas, de fábricas e maquinaria, aluguéis, juros, salários, etc.

Nossas diferenças nos guiam

E em nenhum lugar, no livre mercado, os preços são, por muito tempo, iguais aos custos de produção. São precisamente as diferenças entre preços e custos de produção que estão, em um fluxo constante, redirecionando e mudando o equilíbrio de produção entre milhares de tipos diferentes de commodities e serviços. Nas indústrias em que preços estão bem acima dos custos marginais de produção, haverá mais incentivo a aumentar a produção, bem como mais meios para aumentá-la. Nas indústrias em que os preços caem abaixo dos custos marginais de produção, a produção deve cair. Em todo lugar, a oferta continuará se ajustando à demanda.

Onde preços têm sido estabelecidos de forma arbitrária, lucros e perdas reais não podem ser determinados. Se eu sou um comissário no controle de uma fábrica de automóveis, e não sou dono do dinheiro que paga os salários, e você é um comissário no controle de uma metalúrgica, e não é dono do aço que vende nem recebe por sua venda, e cada um de nós é obrigado a mostrar lucro, a primeira coisa que faremos é apelar ao comitê de planejamento central para estabelecer um preço vantajoso (para ele) do aço e dos automóveis. Como um comissário da fábrica de automóveis, desejarei que o preço dos carros que vendo seja colocado no nível mais alto possível, e o preço do aço que compro colocado no nível mais baixo possível, de modo que meu lucro seja bom ou meu bônus, bem gordo. Mas como comissário da metalúrgica, desejarei que o preço de venda do aço seja colocado no nível mais alto possível, enquanto o preço de meus insumos seja deixado lá embaixo. Mas quando os preços são fixados cega, política ou arbitrariamente, quem saberá qual é o lucro ou prejuízo real de cada indústria (em comparação à contabilidade nominal de lucros e perdas)?

Caos descentralizado

Os problemas do planejamento centralizado de uma economia são tão insuperáveis que, em países socialistas, existem experimentos periódicos de descentralização. Contudo, em uma economia livre apenas pela metade – isto é, em uma economia em que toda fábrica é livre para decidir quanto produzir do quê, mas em que os preços básicos, salários, aluguéis e taxas de juros são cegamente fixados ou adivinhados pelo proprietário último dos meios de produção, o Estado –, um sistema descentralizado poderia rapidamente se tornar ainda mais caótico que um centralizado. Se os produtos finalizados m, n, o, p e assim por diante forem feitos de matérias-primas a, b, c, d e assim por diante, por várias combinações e proporções, como os produtores individuais das matérias-primas sabem quanto produzir, em qual taxa, sem saber quanto os produtores dos produtos finais planejam produzir, de quanto em matéria-prima precisarão e quando irão necessitar dela? E como o produtor individual da matéria-prima ou produto final pode saber quanto produzir sem saber quanto daquela matéria-prima ou produto acabado outros em sua linha estão planejando produzir, bem como relativamente quanto os consumidores finais irão demandar ou desejar?

Um sistema econômico sem propriedade privada e preços de livre mercado deve ser, necessariamente, caótico. Em um sistema comunista, centralizado ou descentralizado, sempre haverá produção desequilibrada, escassez disso e superávit daquilo, duplicações, gargalos, atrasos, ineficiência e desperdício total.

Em resumo, o socialismo é incapaz de resolver o problema incrivelmente complicado do calculo econômico. Tal problema pode ser resolvido apenas no capitalismo.[29]


[23] False Remedies for Poverty. The Freeman, Irvington-on-Hudson, NY, Feb. 1971.

[24] Examinei grande parte desses esquemas em detalhe em outras publicações (em especial, nos livros Economia em uma única lição e Homem versus Estado de bem-estar) e refiro o leitor a essas e outras fontes de estudo para uma discussão mais aprofundada.

[25] MYRDAL, Gunnar. The Challenge of World Poverty. Pantheon Books, 1970. p. 400–401.

[26] HAZLITT, Henry. Man vs. the Welfare State. Arlington House, 1969. p. 23–25.

[27] (Princeton: D. Van Nostrand, 1959.)

[28] (Princeton: D. Van Nostrand, 1960, 1965.)

[29] Para uma discussão detalhada do problema do cálculo econômico, leia o meu romance Time Will Run Back (publicado originalmente pela Appleton-Century-Crofts em 1951 sob o título The Great Idea e republicado sob o novo título pela Arlington House em 1966). Recomendo, também, a leitura dos livros Socialismo e Ação humana, de Ludwig von Mises. MISES, Ludwig von. The Socialist Society, by T. J. B. Hoff (London: William Hodge, 1949).

6. Sobre apaziguar a inveja

Qualquer tentativa de igualar riqueza ou renda através de redistribuição forçada tenderá apenas a destruir renda ou riqueza. Historicamente, o melhor que os defensores da igualdade conseguiram foi igualar todos na pobreza. Tal fato foi descrito diretamente como sua intenção. “Vocês, niveladores”, disse Samuel Johnson na metade do século XVIII, “desejam nivelar por baixo, pois não podem suportar que cheguem ao seu nível”. E, em sua época, vemos até mesmo um liberal eminente como o juiz Holmes escrever: “eu não tenho respeito pela paixão da igualdade, que me parece apenas idealizar a inveja”.[30][31]

Pelo menos um punhado de escritores começou a reconhecer explicitamente o papel profundo da inveja ou medo da inveja na vida, bem como no pensamento político contemporâneo. Em 1966, Helmut Schoeck, professor de Sociologia na Universidade de Mainz, dedicou um livro incisivo ao tema.[32]

Há pouca dúvida de que muitos igualitários são motivados pelo menos parcialmente pela inveja, enquanto outros ainda são motivados não tanto por sua própria inveja, mas pelo medo dela nos outros e o desejo de apaziguá-la ou satisfazê-la.

Mas esse esforço está fadado a ser fútil. Quase ninguém está totalmente satisfeito com seu status com relação aos seus pares. Nos invejosos, a sede de progresso social é insaciável. Tão logo sobem um degrau da escala social ou econômica, seus olhos já estão fixados no próximo. Eles invejam quem está mais acima, não importa quão pouco seja. Com efeito, é mais fácil que invejem seus amigos ou vizinhos próximos, que estão só um pouco melhor, do que celebridades ou milionários, que estão em situação incomparavelmente melhor. A posição do segundo parece inatingível, mas a do seu vizinho, cuja vantagem é mínima, faz com que pensem: “falta pouco para eu alcançá-lo”.

O impulso a privar os outros

Além disso, é mais provável que os invejosos se sintam mais tranquilos ao ver os outros privados de alguma vantagem do que ao obtê-la para si próprios. O problema real não é o que lhes falta, mas o que os outros têm. O invejoso não está satisfeito com a igualdade; em seu âmago, anseia por superioridade e vingança. Na Revolução Francesa de 1848, relata-se que uma mulher das minas de carvão disse a uma moça rica bem-vestida: “sim, madame, tudo será igual agora; eu vestirei seda enquanto você carregará carvão”.

A inveja é implacável. Concessões só aumentam seu apetite por mais concessões. Como Schoeck escreve: “a inveja do homem atinge seu auge onde todos são praticamente iguais; seus clamores por redistribuição são mais altos quando não há virtualmente nada a ser redistribuído”.[33]

(Deveríamos, é claro, diferenciar aquela inveja essencialmente negativa que cobiça as vantagens dos outros da ambição positiva que leva os homens à emulação, à concorrência e ao esforço criativo particular.)

Contudo, a acusação de inveja, ou do medo da inveja dos outros, como motivo dominante de qualquer proposta de redistribuição é muito séria e difícil, se não impossível, de fazer ou provar. Além disso, os motivos para tal proposta, mesmo que possam ser apurados, são irrelevantes aos seus méritos inerentes.

Não obstante, podemos realizar alguns testes objetivos. Às vezes, o motivo de acalmar a inveja das outras pessoas é declarado abertamente. Socialistas sempre afirmam como se alguma forma de destituição admiravelmente igualitária fosse preferível a uma redistribuição completamente “malfeita”. Uma renda nacional em rápido crescimento em termos absolutos para praticamente todos seria deplorada porque está tornando os ricos mais ricos. Um princípio implícito e, às vezes, declarado dos líderes do Partido Trabalhista da Inglaterra após a Segunda Guerra era que “ninguém deveria ter o que todo mundo não pode ter”.

Igualdade, sim; abundância, não!

Mas o principal teste objetivo de uma proposta social não é apenas se enfatiza igualdade mais que abundância, mas se vai além disso e tenta promover igualdade à custa da abundância. A medida proposta tem como intenção primária ajudar os pobres ou penalizar os ricos? E ela realmente puniria os ricos à custa de prejudicar também o resto da população?

Esse é um efeito real, como vimos anteriormente[34], de imposto de renda progressivo, bem como impostos confiscatórios de herança. Essas medidas não só são contraprodutivas do ponto de vista fiscal (arrecadando menos de faixas superiores que tributos menores teriam viabilizado), mas desencorajam ou confiscam a acumulação de capital e investimento que teriam aumentado a produtividade nacional e os salários reais. A maioria dos fundos confiscados é, então, gasta pelo governo nas despesas atuais de consumo. O efeito de longo prazo de tais tributos, é claro, é deixar os trabalhadores pobres em pior situação que de outra forma teriam estado.

Existem economistas que admitirão tal fato, mas responderão que é, não obstante, necessário impor tributos quase confiscatórios ou erigir medidas igualmente redistributivas de modo a apaziguar insatisfeitos e invejosos – ou, até mesmo, para evitar uma revolução.

Apaziguamento gera inveja

Esse argumento é precisamente o oposto da verdade. O efeito de tentar apaziguar a inveja é provocar mais dela.

A teoria mais popular sobre a Revolução Francesa é que ela foi motivada pela piora crescente da condição econômica das massas, enquanto o rei e a aristocracia permaneciam completamente alheios a tal fato. Contudo, Tocqueville, um dos observadores sociais e historiadores mais perspicazes de todos os tempos, propôs uma explicação exatamente oposta. Primeiro, permitam-me descrevê-la como o fez um eminente comentador francês de 1899:

Aqui está a teoria inventada por Tocqueville… Quanto mais leve a opressão, mais ela parece insuportável; o que enraivece não é o fardo pesado, mas o impedimento; o que inspira a revoltar-se não é a opressão, mas sim a humilhação. Os franceses de 1789 foram incitados contra os nobres porque eram quase iguais aos nobres; é uma leve diferença que pode ser apreciada, e o que pode ser apreciado é que conta. A classe média do século XVIII era rica, com condição para ocupar quase qualquer vaga, quase tão poderosa como a nobreza. Eles foram motivados por esse quase e estimulados pela proximidade de seu objetivo; a impaciência é sempre provocada por seus últimos passos.[35]

Eu citei essa passagem porque não encontro a teoria declarada de forma tão condensada pelo próprio Tocqueville. Mesmo assim, esse é o argumento de seu L’Ancien Regime et la Revolution, e muitos documentos lhe dão suporte na tarefa.

À medida que a prosperidade que acabei de descrever começou a se espalhar pela França, a comunidade se tornou mais instável e desconfortável; o descontentamento público cresceu, tal qual o ódio pelas instituições estabelecidas. A nação caminhava a passos largos para a revolução… Deve ser dito que os franceses tomaram sua posição como intolerável precisamente quando ela tinha melhorado. Surpreendente como tal fato possa ser, a história está repleta de contradições.

Não é sempre quando um país vai de mal a pior que ocorre uma revolução. Acontece com mais frequência o fato de um povo, que tinha apoiado as leis mais duras sem reclamar e, aparentemente, como se não fossem sentidas, atacá-las com violência tão logo o fardo começa a ser reduzido. O terrível estado de coisas pós-revolução é quase sempre, de alguma forma, melhor que o estado anterior a ela, e a experiência nos mostra que o momento mais perigoso para um governo ruim é o período das reformas. Nada menos que um grande gênio político pode salvar a soberania que trabalha para aliviar o seu povo após um longo período de opressão. Os males suportados com paciência enquanto inevitáveis parecem intoleráveis tão logo há esperança de escapar deles. Os abusos que são removidos parecem ser pequenos frente ao que ainda permanece, e o seu sentido fica mais claro; o mal diminuiu, é verdade, mas a percepção do mal ficou mais intensa…

Em 1780, ninguém mais falava que a França estava em estado de declínio; parecia, pelo contrário, que não havia nenhum limite ao seu progresso. Foi aí, então, que se originou a teoria de aperfeiçoamento contínuo e indefinido do homem. Doze anos antes, nada se esperava do futuro: logo depois, nada deveria ser temido. A imaginação, somada a esse estado de quase júbilo, fez os homens ignorarem as vantagens que já possuíam, precipitando-os para algo novo[36].

Agravada pela condolência

As expressões de condolência que vieram da própria classe privilegiada só agravaram a situação:

os próprios homens que tinham mais motivos para temer a fúria do povo proclamaram em alto e bom som a injustiça cruel sob a qual o povo sempre havia ficado. Eles destacaram os defeitos monstruosos daquelas instituições que tinham oprimido mais severamente as classes inferiores: eles empregaram todos os seus poderes de retórica para retratar as misérias do cidadão comum e seu trabalho mal remunerado; e, assim, os enraiveceram enquanto buscavam acalmá-los.[37]

Tocqueville continuou a citar em detalhe as recriminações mútuas do rei, dos nobres e do parlamento ao culpar uns aos outros pelas mazelas do povo. Ao lê-las, você tem um sentimento inquietante de que estão plagiando a retórica dos progressistas de limusine dos dias de hoje. Tudo isso não significa que deveríamos nos abster de tomar qualquer medida verdadeiramente calculada para apaziguar as mazelas sociais, bem como reduzir a pobreza. O que significa, sim, é que nunca deveríamos aceitar uma medida governamental cujo propósito seja tentar aplacar os invejosos, acalmar os agitadores ou impedir uma revolução. Tais medidas, que indicam fraqueza e consciência pesada, só levam a mais demandas mais amplas e ruinosas. Um governo que cai na chantagem social precipitará as consequências que mais teme.


[30] HOWE, M. De Wolfe (ed.). The Correspondence of Mr. Justice Holmes and Harold J. Laski. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1953.

[31] On Appeasing Envy. The Freeman, Irvington-on-Hudson, NY, Mar. 1972.

[32] SCHOECK, Helmut. Envy. Harcourt, Brace & World, 1969.

[33] SCHOECK, Helmut. Envy. Harcourt, Brace & World, 1969. p. 303.

[34] HAZLITT, Henry. Should we Divide the Wealth? The Freeman, p. 100, Feb. 1972.

[35] FAGUET, Emile. Politicians and Moralists of the Nineteenth Century. Boston: Little, Brown, 1928. p. 93.

[36] TOCQUEVILLE, Alexis de. On the State of Society in France before the Revolution of 1789. London: John Murray, 1856. p. 321–324.

[37] TOCQUEVILLE, Alexis de. On the State of Society in France before the Revolution of 1789. London: John Murray, 1856. p. 329–330.

7. Planejamento versus livre mercado

Quando discutimos “planejamento econômico”, devemos ter claro sobre o que estamos falando. A questão real não é “planejar ou não planejar?”, mas “plano de quem?”.[38]

Cada um de nós, em sua vida privada, está constantemente planejando para o futuro: o que faremos no resto do dia, no resto da semana, ou no final de semana; o que faremos neste mês ou no próximo ano. Alguns de nós planejam, embora de forma mais ampla, 10 ou 20 anos à frente.

Estamos planejando tanto como consumidores quanto como produtores. Empregados estão ou planejando permanecer onde estão, ou trocar de função ou mesmo de empresa; ou de uma cidade para outra; ou mesmo de uma carreira para outra. Empreendedores estão ou planejando permanecer no local, ou buscar oportunidades em outra cidade, expandir ou reduzir suas operações, parar de fabricar um produto cuja demanda creem estar diminuindo, ou começar a produzir outro produto cuja demanda creem que irá crescer.

Hoje, as pessoas que se autodenominam “planejadores econômicos” ignoram ou, por implicação, negam tudo isso. Eles falam como se o mundo da iniciativa privada – o livre mercado, a relação oferta e demanda e a concorrência – fosse um mundo de caos e anarquia, em que ninguém jamais planeja ou olha para o futuro, mas apenas vive do momento. Certa vez participei de um debate de TV com um planejador conhecido em uma posição de destaque que implicou que, sem previsões e orientação, as empresas americanas voariam “cegas”. Na melhor das hipóteses, afirmam os planejadores, o mundo da iniciativa privada é um em que todo mundo trabalha ou planeja propósitos contraditórios entre si ou faz planos apenas em seu interesse “privado” em vez do interesse público.

Hoje, o planejador deseja implantar seu próprio plano em lugar dos planos do resto da população. Na melhor das hipóteses, ele deseja que o governo estabeleça um plano-mestre ao qual todo mundo deve estar subordinado.

Planejamento central envolve compulsão

É este aspecto do planejamento para o qual nossa atenção deveria ser direcionada: planejamento sempre envolve compulsão. Isso pode ser disfarçado de diversas formas. Os planejadores centrais tentarão, é claro, persuadir as pessoas de que o plano-mestre foi desenhado para o seu próprio bem e que as únicas pessoas que serão coagidas serão aquelas cujos planos “não estiverem no interesse público”.

Os planejadores dirão, na nova fraseologia da moda, que seus planos não são “imperativos”, mas meramente “indicativos”. Eles usarão o bordão da “democracia”, liberdade, cooperação e não compulsão ao “consultar todos os grupos” – trabalhadores, empresários, governantes e representantes dos consumidores – na concepção de tal plano, bem como em seus “objetivos” e “metas” específicos. É claro, se eles conseguissem de fato ter êxito em conceder a todos participação proporcional, voz e liberdade de escolha, se todos tivessem permissão para perseguir um plano de produção ou consumo de bens e serviços específicos já previamente decidido, então, todo o plano seria inútil e sem sentido, uma perda completa de tempo e energia. O plano tem significado apenas se força a produção e o consumo de coisas diferentes ou quantidades diferentes de coisas que teriam sido produzidas no livre mercado. Em resumo, tem significado apenas na medida em que exerce compulsão sobre alguém e força alguma mudança no padrão de produção e consumo.

Existem duas desculpas para essa coerção. Uma é que o livre mercado produz os bens errados e que só o planejamento e a orientação governamentais poderiam assegurar a produção dos bens “corretos”. Essa é a tese popularizada por J. K. Galbraith. A outra desculpa é que o livre mercado não produz bens suficientes e que só o planejamento governamental poderia acelerar as coisas. Essa é a tese dos seguidores do “crescimento econômico”.

Os planos quinquenais

Tratemos, primeiro, da tese de “Galbraith”. Eu uso seu sobrenome entre aspas porque essa tese é muito anterior à sua apresentação. É a base de todos os planos quinquenais que hoje são adotados por um grupo de nações socialistas. Embora esses planos possam consistir no estabelecimento de uma porcentagem “geral” de aumento de produção, sua característica marcante é, em vez disso, uma rede extensa de “metas” específicas para indústrias específicas: deve haver um aumento de 25% na capacidade da indústria siderúrgica, 15% na indústria cimenteira, 12% na indústria de laticínios, e assim por diante.

Em especial, nos planos quinquenais de países comunistas, sempre há um forte viés em favor da indústria pesada, haja vista que aumenta o poder bélico. Em todos os planos, porém, mesmo em países não comunistas, existe um forte viés em favor da industrialização, da indústria pesada em detrimento da agricultura, na crença de que tal preferência aumenta necessariamente a renda real de forma mais rápida, levando a maior autossuficiência nacional. Não é coincidência o fato de que esses países incorram constantemente em crises agrícolas e fome.

Mas os planos também refletem julgamento morais implícitos ou explícitos dos planejadores centrais. Os últimos raramente planejam um aumento na produção de cigarros ou uísque, ou, na verdade, de qualquer item considerado “frugal”. Os padrões são sempre duros e puritanos. A palavra “austeridade” aparece com frequência. Diz-se aos consumidores que devem “apertar os cintos” por um pouco mais de tempo. Às vezes, se o último plano não foi tão mal, há um pouco de relaxamento: os consumidores podem ter, talvez, alguns carros, hospitais e parques. Mas quase nunca há recursos para, digamos, mais pistas de golfe ou mesmo de boliche. Em geral, nenhum tipo de despesa é aprovada caso não possa ser universalizada ou “desfrutada pela maioria”. E o chamado gasto frugal é desencorajado, mesmo no chamado plano “indicativo”, posto que os promotores de tais projetos não conseguem acesso ao crédito bancário ou aos mercados de capital. Em algum ponto, a compulsão governamental entra em cena.

Austeridade leva ao desperdício

Essa desaprovação e coerção podem ser justificadas de diversas formas. Praticamente todos os programas de “austeridade” resultam não da crença de que uma pessoa que deseja fazer um gasto “frugal” não pode pagá-lo, mas da crença de que a “nação” não pode pagá-lo. Isso envolve a suposição de que, se eu abrir ou patrocinar uma pista de boliche, estarei privando, de alguma forma, meus concidadãos de bens e serviços mais necessários. Isso seria verdade na suposição de que a coisa certa a fazer é tributar o meu “excedente”, transferindo-o para os outros sob a forma de dinheiro, bens e serviços. Contudo, se eu tiver a permissão de manter minha renda adicional e for proibido de gastá-la em boliche, queijo ou vinho importado, gastarei em outra coisa que não for proibida. Assim, quando o programa de austeridade inglês após a Segunda Guerra Mundial proibiu os ingleses de consumirem produtos importados, sob o argumento de que a “nação” não poderia gastar “moeda estrangeira” ou ter um “balanço de pagamentos desfavorável”, os oficiais ficaram chocados ao notar que o dinheiro tinha sido desperdiçado em jogos de futebol e corridas de cães. E não há razão para supor, de qualquer forma, que a “escassez de dólares” ou a “balança de pagamento desfavorável” foi reduzida. O programa de austeridade, na medida em que não foi aplicado via aumento no imposto de renda dos mais ricos, provavelmente reduziu, da mesma forma, exportações potenciais e importações potenciais; e, na medida em que foi aplicado via aumento no imposto de renda dos mais ricos, desencorajou exportações ao restringir e desencorajar a produção.

Escolha burocrática

Por fim, chegamos à tese específica de Galbraith, que se desenvolveu a partir da suspeita burocrática secular dos gastos frugais, de que os consumidores geralmente não sabem como gastar a renda que recebem; de que eles compram qualquer coisa anunciada na TV; de que os consumidores são, em resumo, idiotas, gastando seu dinheiro em trivialidades, se não em lixo completo. Segundo essa tese, a maioria dos consumidores também, se livre para gastar, mostra péssimo gosto e deseja carros de cor cereja com rabos de peixe ridículos.

A conclusão natural de tudo isso – e Galbraith não hesita em expô-la – é que os consumidores deveriam ser privados da liberdade de escolha e que os burocratas do governo, repletos de sabedoria – é claro, uma sabedoria pouco convencional – deveriam fazer as suas escolhas de consumo por eles. Os consumidores deveriam ser abastecidos não com o que eles próprios desejam, mas com o que os burocratas de gosto e cultura requintados acharem melhor para eles. E a forma de fazer isso é tributar das pessoas toda renda que receberem acima do necessário para atender às suas necessidades mais básicas, transferindo-a para burocratas que a gastarão com vistas ao bem maior das pessoas – mais e melhores estradas, parques, maternais e escolas, além de programas televisivos –, tudo provido, é claro, pelo governo.

E aqui Galbraith recorre a um elegante truque semântico. Segundo ele, os bens e serviços em que as pessoas voluntariamente gastam seu próprio dinheiro formam o “setor privado” da economia, enquanto os bens e serviços providos pelo governo, financiados por meio da renda extorquida via tributos, formam o “setor público”. Agora, o adjetivo “privado” carrega uma aura de egoísmo, egocentrismo e exclusividade, enquanto o adjetivo “público” carrega uma aura de democrático, compartilhado, generoso, patriótico e abnegado – em resumo, do interesse público. E como a tendência de expansão do Estado de bem-estar tem sido, na verdade, tirar das mãos privadas e assumir o controle da provisão de bens e serviços considerados essenciais e edificantes – estradas e saneamento, escolas, hospitais e centros de pesquisa, previdência social e cuidados médicos –, a tendência deve ser associar cada vez mais a palavra “público” com tudo que é totalmente necessário e louvável, deixando a palavra “privado” associada apenas com superfluidades e caprichos que sobram após tudo que é realmente importante tiver sido cuidado pela via assistencialista.

Se a distinção entre esses dois “setores” fosse colocada em termos neutros – digamos, “setor privado” versus “setor governamental” –, a balança não pesaria tanto em prol do segundo. Na verdade, o mais neutro vocabulário levaria a mente do ouvinte a questionar se certas atividades hoje assumidas pelo Estado de bem-estar moderno estão legítima e adequadamente dentro da província governamental. O uso por Galbraith das palavras “setor”, “privado” ou “público” habilmente carrega a implicação de que o setor “público” é legítimo não só nas funções que já assumiu, mas também em quaisquer outras. O ponto de Galbraith é que o “setor público” está “faminto” em prol de um “setor privado” empanturrado de superfluidades e lixo.

Sua receita para induzir o crescimento acaba sempre sendo a inflação. Isso leva à ilusão de crescimento, que é medido em suas estatísticas em termos monetários. O que os planejadores de crescimento não percebem é que a mágica da inflação é sempre de curto prazo e logo se esvai. Ela pode funcionar temporariamente e sob condições especiais – quando faz com que os preços subam mais rápido que os salários e, assim, repõe ou expande as margens de lucro. Mas isso pode acontecer apenas nos estágios iniciais da inflação, e que tendem a não continuar. E pode acontecer mesmo por causa do consentimento ou passividade temporários dos líderes sindicalistas. As consequências desse paraíso de curto prazo são investimentos ruins, desperdício, redistribuição arbitrária de riqueza e renda, crescimento da especulação e jogatina, imoralidade e corrupção, ressentimento social, descontentamento e revolta, desilusão, falência, aumento do controle governamental e colapso eventual. A euforia desse ano se torna a ressaca do próximo. O crescimento saudável de longo prazo é sempre protelado.

Apesar do “plano”

Antes de concluir, eu deveria tratar, pelo menos, dos argumentos estatísticos em favor do planejamento governamental. Esse é o tipo de planejamento que teve êxito em promover crescimento e pode ser estatisticamente provado. Em resposta, gostaria de citar um artigo sobre planejamento econômico publicado na Survey pela Morgan Guaranty Trust Company of New York em sua edição de junho de 1962:

Não há como estar seguro de quanto crédito é devido aos planejadores franceses em si em vista dos impressionantes 41,2% de crescimento anual na década passada. Outros fatores estavam trabalhando em seu favor: um nível inicial relativamente baixo após a destruição da guerra, fundos do plano Marshall nos primeiros anos, ampla oferta laboral sifonada da agricultura e de indústrias obsoletas e ineficientes, mais recentemente o ar puro da concorrência externa devido à liberalização das restrições às importações, o dinamismo geral do mercado comum e o avanço do consumidor como fonte de demanda. Pelo fato de a França hoje ter um nível mais elevado de estabilidade e uma moeda forte junto ao seu crescimento, a severa disciplina fiscal aplicada após a desvalorização do final de 1958 deve ser considerada como preponderante para o crescimento registrado.

O fato de um plano ser cumprido, em outras palavras, não prova que resultados iguais ou melhores não poderiam ter sido alcançados com um nível menor de orientação central. Qualquer julgamento de causa e efeito, é claro, deve também considerar os casos da Alemanha Ocidental e Itália, que sustentaram altas taxas de crescimento sem planejamento central da economia.

Em resumo, as estimativas estatísticas de taxas de crescimento, mesmo se pudéssemos aceitá-las como significativas e precisas, são o resultado de muitos fatores que nunca poderão ser atribuídos com confiança para qualquer causa. Em última instância, devemos retroceder a uma conclusão a priori, mesmo que seja confirmada pela experiência humana: que, quando cada um de nós é livre para criar seu próprio destino econômico, dentro da estrutura do livre mercado, da instituição da propriedade privada, e do estado de direto, melhoraremos nossa condição econômica muito mais rápido que quando somos ordenados por burocratas.


[38] Planning vs. The Free Market. The Freeman, Irvington-on-Hudson, NY, Dec, 1962. Publicado originalmente em uma palestra de 1962 da Mont Pelerin Society.

8. Podemos manter a livre empresa?

Nove décimos do que é escrito hoje sobre as questões econômicas é um ataque implícito ou explícito ao capitalismo. Os ataques são respondidos ocasionalmente. Mas nenhuma das respostas, mesmo quando são ouvidas, são aceitas como conclusivas. Os ataques continuam, multiplicam-se. Você não consegue ler o seu jornal diário sem encontrar milhares delas. As respostas esporádicas ficam perdidas na torrente de acusações. O número de acusações são de dez para uma.

O que está errado? No fim das contas, o capitalismo é um sistema indefensável? Os seus defensores não foram só superados em número, mas também vencidos nos argumentos? Podemos lembrar facilmente de algumas das grandes mentes que se dispuseram à sua defesa, direta ou indireta, no passado – Hume, Adam Smith, Ricardo, Malthus, Bastiat, Senior, Böhm-Bawerk, John Bates Clark; ou as finas mentes que assumiram a tarefa em nossos dias – Ludwig von Mises, F. A. Hayek, Milton Friedman, Murray Rothbard, Hans Sennholz, Israel Kirzner, David McCord Wright e tantos outros.

Então, o que está errado? Eu me arrisco a dizer que nenhuma defesa do capitalismo, não importa quão brilhante ou profunda possa ser, jamais será aceita como definitiva. Os ataques ao capitalismo se originam, pelo menos, de cinco impulsos ou propensões, todas que, provavelmente, estarão conosco para sempre, porque parecem ser inerentes à nossa natureza. São elas: (1) compaixão genuína à vista do infortúnio individual; (2) impaciência por uma cura; (3) inveja; (4) propensão a pensar apenas nos resultados pretendidos ou imediatos de qualquer intervenção governamental proposta e desconsiderar os resultados secundários, de longo prazo; e (5) propensão a comparar qualquer estado de coisas, e seus defeitos inevitáveis, a algum ideal hipotético.

Esses cinco impulsos ou tendências se misturam e sobrepõem. Analisemo-los em ordem, começando pela compaixão. A maioria de nós, à visão da extrema pobreza, é movida a desejar fazer algo para mitigá-la – ou que outros o façam. E somos tão impacientes para ver a pobreza mitigada tão rápido quanto possível que, não importa quão proibitivas as dimensões do problema, somos tentados a pensar que haverá uma solução simples, direta e fácil.

O papel da inveja

Vejamos agora o papel da inveja. Poucos de nós estão completamente livres disso. Parece ser parte da natureza do homem nunca estar satisfeito até ver outras pessoas em condição melhor que a dele. Além disso, poucos de nós estão dispostos a aceitar a melhor sorte dos outros como resultado de seus esforços maiores. Tendemos a atribuir tal sucesso à “sorte”, se não ao “sistema”. De qualquer forma, a pressão para rebaixar os ricos parece mais forte e persistente na maioria das democracias que o ideal de elevar os pobres.

A inveja se revela diariamente em discursos políticos, bem como em nossas leis. Ela tem um papel definido na popularidade do imposto de renda progressivo, que está firmemente estabelecida em quase todos os países, embora viole todo cânone de equidade. Como J. R. McCulloch disse em 1830: “no momento em que você abandona o princípio cardinal de extrair de todos os indivíduos a mesma proporção de sua renda ou de sua propriedade, você está velejando no oceano sem leme ou compasso, e não há limite para a injustiça ou insensatez que você poderá cometer”.

A previsão de McCulloch tem sido confirmada pelos fatos. Historicamente, quase toda vez que houve uma revisão das alíquotas de imposto de renda, a progressão se tornou mais acentuada. Quando a taxa escalonada de renda foi primeiro adotada nos Estados Unidos em 1913, a taxa marginal mais elevada era de 7%. Trinta anos depois, havia subido para 91%. Na Grã-Bretanha, a taxa marginal foi de 8,5% para 97% em um período similar. Foi demonstrado repetidamente que essas alíquotas confiscatórias geram receitas negligenciáveis. A redução da renda real que causam é certamente maior que a receita que geram. Em resumo, elas prejudicaram os contribuintes de faixas inferiores.

Ainda assim, a inveja tem papel crucial na manutenção do imposto de renda progressivo. A maioria dos contribuintes aceita taxas de tributação bem mais elevadas do que aceitariam se as taxas fossem uniformes; pois os contribuintes em cada faixa de renda se consolam no pensamento de que seus vizinhos mais ricos devem estar pagando uma alíquota maior. Assim, embora dois terços (65,5%) do imposto de renda seja pago (1969) por aqueles com rendas brutas ajustadas de US$ 20 mil ou menos, existe uma ilusão quase universal de que o fardo real da tributação está caindo nos ombros dos muito ricos.

Mas, talvez, a maior razão pela qual os governos abandonam cada vez mais os princípios do livre mercado seja mera visão de curto prazo. Eles tentam curar alguma suposta falha econômica diretamente por alguma medida simples, e falham miseravelmente ao prever ou questionar quais serão as consequências secundárias e de longo prazo de tais medidas.

Manipulando a moeda (política monetária)

Desde tempos imemoriais, sempre e quando governos sentem que seu país está insuficientemente rico, o comércio está estagnado ou o desemprego nas alturas, fortalece-se a teoria de que o problema fundamental é uma “escassez de moeda”. Após a invenção da impressora, quando o governo poderia emitir notas sem limites ou adicionar zeros à revelia, qualquer aumento imaginável na oferta de moeda se tornou possível.

O que ainda não ficou claro é que qualquer efeito simulado foi temporário e, pior, a um grande custo. Se o boom fosse obtido através de uma expansão expressiva do crédito bancário, estava condenado a ser seguido por uma recessão ou crise tão logo esse novo crédito fosse pago. Se o boom fosse obtido pela impressão de moeda, tornava as pessoas temporariamente mais ricas ao custo de tornar outras pessoas mais pobres (em termos reais).

Quando se aumenta a oferta de moeda, o poder de compra de cada unidade deve logicamente cair. No longo prazo, nada é obtido pelo aumento da emissão de papel-moeda. Os preços de bens tendem, ceteris paribus, a subir na mesma proporção do aumento da oferta de moeda. Se o estoque de moeda for duplicado, ele não pode, no longo prazo, comprar mais bens e serviços que um estoque inferior de moeda.

E, mesmo assim, o governo de quase toda nação do mundo está ocupado aumentando a emissão de papel-moeda, em parte, se não em sua totalidade, devido à sua crença de que é “reduzindo a escassez de moeda” que se “promove crescimento econômico mais rápido”. Essa ilusão é intensificada pelo hábito de considerar o poder de compra da unidade monetária como se fosse constante. Em 1971, houve uma grande explosão de palmas porque o PIB tinha, por fim, superado a figura mágica de um trilhão de dólares. Ele alcançou US$ 1,04 trilhões. Esquece-se de que, se o suposto PIB de 1971 tinha sido calculado com base no valor do poder de compra do dólar de 1958, esse PIB de 1971 teria sido de apenas US$ 740 bilhões e, se fosse usado o ano de 1939 como base, teria sido de apenas US$ 320 bilhões.

Ainda assim, a expansão monetária está em todo lugar – em todos os países e, por que não, no FMI com seus direitos especiais de saque – e é a política oficial. Seu efeito inevitável é o aumento de preços. Mas aumentos de preços não são populares. Portanto, governos proíbem a subida de preços.

E esse controle de preços tem enorme vantagem política ao desviar a atenção da própria responsabilidade governamental pelo controle da inflação e, por implicação, joga a culpa do aumento de preços na ganância de produtores e vendedores.

Controle de preços

O histórico de controle de preços nos faz voltar muitos milênios na história. Eles foram impostos por faraós no Antigo Egito; foram decretados por Hamurabi, rei da Babilônia, no século XVIII a.C.; e testados na Grécia Antiga.

Em 301, o imperador romano Diocleciano promulgou seu famoso Édito sobre os Preços Máximos, que fixava preços de quase 800 itens diferentes, punindo a violação com morte. Por medo, nada foi oferecido para venda, e a escassez ficou ainda pior. Após uma dezena de anos e muitas execuções, a lei foi abolida.

Na Grã-Bretanha, Henrique III tentou regular o preço do trigo e do pão em 1202. Antuérpia promulgou o controle de preços em 1585, medida que alguns historiadores acreditam tê-la levado à ruína. Leis de fixação de preços asseguradas pela guilhotina também foram impostas durante a Revolução Francesa, embora os preços crescentes fossem causados pela própria política do governo revolucionário, que emitia grandes volumes de papel-moeda, gerando inflação.

Ainda assim, os governos atuais nada aprenderam desse passado sombrio: continuam a emitir papel-moeda para estimular o emprego e o “crescimento econômico”; e, logo depois, tentam evitar o inevitável aumento de preços com ucasses, ordenando todo mundo a baixar os preços.

Intervenção danosa

Mas embora leis de fixação de preços sejam sempre inúteis, isso não significa que não sejam danosas. Elas podem causar um dano econômico maior que a própria inflação. Elas são prejudiciais em proporção já que o teto legal de preços está abaixo que os preços do livre mercado apontariam, em proporção à duração dos controles de preços e à rigidez com as quais são implementadas.

Pois, se o preço legal de qualquer commodity, seja pão ou calçados, é mantido por qualquer édito substancialmente abaixo de seu preço no livre mercado, o preço baixo fixado deve encorajar a demanda por ele, desencorajar sua produção, levando à escassez. A margem de lucro na produção e venda será muito pequena se comparada com a margem de lucro na produção ou venda de outro tipo de bem.

Além de gerar escassez de algumas commodities, bem como gargalos na produção, o controle de preços deve necessariamente distorcer e desequilibrar toda a estrutura de produção. Pois não só as quantidades absolutas, mas também as proporções em que dezenas de milhares de bens e serviços diferentes são produzidos, são determinadas no livre mercado por oferta e demanda relativas, e preços relativos em moeda, e os custos relativos de produção de commodities A, B, C e N. Os preços de mercado têm que funcionar. Eles são sinais tanto para produtores como para consumidores. Eles indicam locais de escassez e excedentes. Eles dizem quais commodities serão mais lucrativas produzir e quais não serão. Remover, destruir ou proibir esses sinais descoordenará e desencorajará a produção.

Controles seletivos não são uma “solução” intermediária

Controles gerais de preços são relativamente raros. Normalmente, governos preferem impor tetos a um preço particular. O bode expiatório favorito desde a Primeira Guerra Mundial tem sido o controle de aluguéis de casas e apartamentos.

Tão logo impostos, os controles de preços são mantidos, por vezes, por uma geração ou mais. Quando são impostos, como quase sempre o são, em um período de inflação, os aluguéis congelados anualmente se tornam cada vez menos realistas. O efeito de longo prazo é que os locatários não têm incentivo nem fundos para manter casas ou apartamentos alugados em condições de uso, muito menos reformados. No mais das vezes, prejuízos forçam os proprietários a abandonar suas propriedades por completo. Construtores privados, temendo o mesmo destino, hesitam em construir novas casas. Favelas se proliferam, há escassez de moradia, e a maioria dos inquilinos, em cujo interesse, supostamente, baseou-se a imposição dos controles, ficam em pior condição.

Talvez a forma de controle de preço mais antiga e popular no mundo seja o controle de taxas de juros. Na China, Índia e Roma Antiga, e em quase todos os lugares na Idade Média, todo tipo de juro era chamado de “usura” e proibido totalmente. Isso tornava o progresso econômico praticamente impossível. Posteriormente, a cobrança de juro foi permitida, mas tetos legais foram impostos. Isso atrasou o progresso econômico, mas, ao contrário da proibição total, bloqueou-o em sua totalidade.

Ainda assim, a hostilidade política contra taxas de juros mais elevadas que o comum nunca cessou. Hoje, burocratas combatem tais taxas “exorbitantes” através de denúncias ou éditos. O método favorito do governo para manter as taxas de juro baixas é inundar o mercado (via política monetária) com novos fundos emprestáveis. Essa medida pode até ser exitosa por algum tempo, mas o efeito a longo prazo da expansão descontrolada de moeda e crédito é aumentar o temor empresarial de que a inflação e o aumento de preços continuarão. Assim, emprestadores, para se proteger contra uma queda esperada no poder de compra futuro de seus dólares, colocam um “prêmio” sobre o preço. Isso eleva ainda mais a taxa de juros.

A tendência de os políticos nada aprenderem sobre economia é ilustrada novamente nas leis que governam o comércio internacional. Os economistas clássicos do século XVIII demoliram totalmente os argumentos em prol do protecionismo. Eles demostraram que o efeito de longo prazo de tarifas protecionistas e outras barreiras alfandegárias só poderia ser o de tornar a produção mais ineficiente, de gerar inflação e de reduzir o progresso econômico. Ainda assim, o protecionismo está tão forte quanto foi em 1776, quando A riqueza das nações foi publicado.

A conquista da pobreza

Da mesma forma, todas as medidas políticas populares para reduzir ou aliviar a pobreza são mais distintas por sua idade do que sua efetividade.

O efeito principal das leis de salário mínimo é criar desemprego, principalmente entre os trabalhadores pouco qualificados que a lei pretendia ajudar. Não podemos valorar em X os serviços de um trabalhador ao tornar ilegal que alguém lhe ofereça menos. Apenas o privamos do direito de receber o valor que suas habilidades e oportunidades lhe permitem ganhar, enquanto privamos a comunidade dos serviços que ele é capaz de prover. Seu destino? O assistencialismo.

Ao levar mais pessoas ao assistencialismo, por um lado, via leis do salário mínimo e, por outro, via aumento constante das parcelas mensais, encorajamos o crescimento descontrolado do Estado de bem-estar. Agora, para “curar” esse crescimento, reformadores propõem, então, uma renda anual garantida ou um “imposto de renda negativo”. A característica particular desses “benefícios” é que devem ser concedidos automaticamente, sem qualquer avaliação, não importando se o beneficiário escolhe ou não trabalhar. O resultado poderia ser apenas um aumento enorme no número de inativos e, por consequência, um aumento na carga tributária dos que trabalham. Podemos ter tanto desemprego quanto estivermos dispostos a pagar.

No fundo, quase toda a medida governamental “antipobreza” na história consistiu em extorquir parte de receitas ou poupança de Pedro para sustentar Paulo. O resultado inevitável de longo prazo é reduzir os incentivos ao trabalho e à poupança tanto de Pedro como de Paulo.

O que se negligencia em todas as intervenções governamentais é o milagre do mercado – a forma magnífica pela qual a livre iniciativa maximiza os incentivos à produção, ao trabalho, à inovação, à eficiência, à poupança e ao investimento, punindo ou recompensando com tal precisão de modo a equilibrar a produção de centenas de milhares de bens e serviços desejados nas proporções em que são mais demandados pelos consumidores. Com efeito, só o livre mercado pode resolver o que os economistas chamam de “problema do cálculo econômico”.

O problema do cálculo econômico

O socialismo é incapaz de resolver esse problema. Os gestores burocratas de indústrias nacionalizadas podem ser pessoas sérias, tementes a Deus; mas por não terem medo de sofrer prejuízos devido a erros ou ineficiências e, muito menos, esperança de obter lucros pessoais através de redução de custos e inovação, estão fadados, na melhor das hipóteses, a se tornar vítimas da rotina, tolerando a ineficiência.

Mas essa é a menor parte do problema. Como um socialismo verdadeiro não se basearia no mercado, nos preços em moeda ou nos custos em termos de dinheiro, os gestores burocratas da economia socialista não saberiam quais itens estavam produzindo com lucro ou prejuízo para a sociedade. Tampouco saberiam como tentar produzir cada um dos itens ou serviços, ou como assegurar que a produção de dezenas de milhares de commodities diferentes fosse sincronizada ou coordenada. Eles poderiam, é claro (como às vezes o fizeram), estipular preços arbitrários para matérias-primas e outros itens diversos. Mas eles ainda não saberiam quanto ou se os lucros ou prejuízos contábeis mostrados refletiriam lucros ou perdas reais. Em resumo, seriam incapazes de resolver o problema do cálculo econômico. Eles estariam trabalhando às cegas.

Os gestores de uma economia socialista teriam que fixar salários de modo arbitrário e, se não obtivessem o número correto de trabalhadores competentes na produção de várias coisas que os diretores queriam ver produzidas, e nas quantidades que desejavam que fossem produzidas, teriam de usar a coerção, forçando trabalhadores a tarefas particulares e a direcionar a economia do centro, em um tipo de disciplina militar. Essa militarização e arregimentação do trabalho é o que, de fato, Cuba, Rússia e China Comunista optaram fazer.

Expectativas crescentes

Chegamos, por fim, à quinta razão que ofereci inicialmente para a hostilidade crônica à livre empresa. Essa é a tendência a comparar qualquer estado de coisas atual, e seus defeitos inevitáveis, com algum ideal hipotético; comparar qualquer coisa com algum paraíso imaginário que pode vir a surgir. Apesar dos avanços celerados e prodigiosos que uma economia predominantemente privada conquistou nos últimos 200 anos, e mesmo nas últimas duas décadas, esses avanços sempre podem ser mostrados como aquém do potencial de algum estado de coisas imaginável que poderia ter sido melhor.

Pode ser verdade, por exemplo, que os salários monetários nos Estados Unidos aumentaram cinco vezes e, mesmo após todo o aumento dos custos de vida, que os salários reais tenham mais que duplicado na última geração. Mas por que não triplicaram? Pode ser verdade que o número de “pobres”, pela estatística dos próprios burocratas, tenha caído de 20% da população em 1962 (quando da primeira estimativa) para 13% em 1970. Mas por que a pobreza não foi erradicada por completo? Pode ser verdade que empregados de corporações já recebem sete oitavos de toda a renda disponível para distribuição entre eles e os acionistas. Mas por que os trabalhadores não recebem tudo? E assim por diante. O próprio sucesso do sistema encorajou o crescimento constante nas expectativas e demandas – expectativas e demandas que continuam superando até o que o melhor sistema imaginável poderia alcançar.

O esforço para proteger o que conhecemos como capitalismo – isto é, mercados livres e propriedade privada dos meios de produção – foi longo e árduo. Provou-se um fardo inestimável para a humanidade. Ainda assim, se se quer que tal sistema seja salvo da destruição proposital, a tarefa dos incrivelmente poucos que parecem entender como e por que ele funciona será eterna. Eles não têm a opção de descansar em sua defesa da livre iniciativa, ou qualquer exposição do socialismo ou outros falsos remédios, que eles ou seus predecessores podem ter feito no passado. Houve defesas magníficas nos últimos 200 anos, de Adam Smith a Bastiat, de Bohm Bawerk a Mises e Hayek. Mas não são suficientes. Todo dia o capitalismo encara alguma nova acusação, ou alguma propagandeada como nova.

Eterna vigilância: a verdade precisa ser repetida

Em resumo, ignorância, visão estreita, inveja, impaciência, boas intenções e um idealismo utópico se combinam para engendrar uma barreira sem fim de acusações contra “o sistema” – isto é, contra o livre mercado. E, então, a defesa, se se quer preservá-la, deve ser eterna.

Percebi que estou aplicando apenas a um campo particular uma exortação que Goethe certa vez aplicou a todos os campos de conhecimento. Em 1828, ele escreveu uma carta a Eckermann:

A verdade deve ser repetida continuamente, porque o erro está sendo constantemente pregado ao nosso redor. E não apenas por indivíduos isolados, mas pela maioria. Nos jornais e enciclopédias, nas escolas e universidades, em todo lugar o erro é dominante, integrado segura e confortavelmente na opinião pública que está ao seu lado.

Ainda assim, em todo o pensamento político e econômico atual, a necessidade de continuar repetindo a verdade assume uma urgência sem precedentes. O que está hoje sob ataque constante e crescente é o capitalismo – que significa livre empresa – que significa liberdade econômica – que significa, na verdade, a liberdade humana. Como Alexander Hamilton nos precaviu: “poder sobre a subsistência humana é poder sobre a vontade humana”.

O que está sendo ameaçado, na verdade, não é nada menos que nossa própria civilização; pois é o capitalismo que tornou possível os grandes avanços não só na provisão das necessidades e facilidades da vida, mas na ciência, tecnologia e conhecimento de todos os tipos, dos quais depende a civilização.

Todos aqueles que entendem isso têm o dever de explicar e defender o sistema. E para fazê-lo, se necessário, repeti-lo incansavelmente.

Esse dever não se resume exclusivamente aos economistas profissionais. Ele recai sobre cada um de nós que percebe os benefícios da livre empresa e a ameaça presente de sua destruição expor suas convicções dentro da esfera de sua influência, bem como apoiar outros que estão expondo tais convicções. Cada um de nós é livre para praticar o que prega e pregar o que pratica. A oportunidade é tão grande quanto o desafio.

9. Repete-se a lição

A economia, conforme visto na realidade, é a ciência que reconhece consequências secundárias. É também a ciência que vê as consequências gerais. É a ciência que examina os efeitos de alguma política proposta ou existente, não apenas em relação a algum interesse especial, a curto prazo, mas também em relação ao interesse geral, a longo prazo.[39]

É dessa lição que tratou esse livro.

Enunciamo-la em forma de esqueleto e fomos lhe dando corpo através de centenas de aplicações práticas.

Contudo, no curso de exemplos específicos, nos deparamos com sugestões de outras lições gerais, e me parece conveniente deixá-las claras em nossa mente.

Frente à constatação de que a economia é a ciência que examina consequências, tornamo-nos cientes de que, à feição da lógica e da matemática, é a ciência que reconhece implicações inevitáveis.

Tal ponto pode ser visto em uma simples equação algébrica. Suponhamos que, se x é igual a 5, x + y = 12. A “solução” dessa equação é que y é igual a 7, embora não façamos grandes asserções a respeito disso.

O mesmo raciocínio aplicado a essa equação elementar é aplicável nas equações mais complexas e abstrusas da matemática. A resposta encontra-se na própria enunciação do problema. Deve, de fato, ser “calculada”. O resultado, na verdade, pode às vezes chegar ao homem, que resolve a equação com formidável surpresa; ou pode ser que ele tenha a sensação da descoberta de algo novo, igual à de “algum astrônomo quando detecta um novo planeta”, sensação essa justificada pelas consequências teóricas ou práticas da solução. Nada disso muda o fato de que a solução já estava contida na formulação do problema, embora não tivesse sido reconhecida imediatamente, pois a matemática nos lembra de que implicações inevitáveis não são, necessariamente, implicações óbvias.

Tudo isso é igualmente verdadeiro com respeito à economia. Aqui, poder-se-ia comparar a economia à engenharia. Quando um engenheiro tem um problema, a primeira coisa que deve fazer é determinar os fatos que com ele se relacionam. Se desenha uma ponte, deve primeiro conhecer a distância exata entre os dois pontos que a ligarão, bem como sua precisa natureza topográfica, a carga máxima que ela poderá suportar, a força de tensão e compressão do aço com que a ponte será construída e as vibrações e tensões a que será submetida. Boa parte dessas pesquisas factuais já foi feita por outros.

Outros também já resolveram equações matemáticas complicadas pelas quais, conhecendo a resistência dos materiais e a tensão a que estes estão sujeitos, puderam determinar diâmetro, forma, número e estrutura das torres, cabos e vigas da ponte.

Da mesma forma, o economista, quando desafiado por um problema prático, deve averiguar os fatos essenciais desse problema, deduzindo o possível desses fatos. O aspecto dedutivo da economia não é menos importante que o factual. Pode-se dizer sobre ele o que Santayana disse da lógica (e que se poderia, igualmente, dizer da matemática): “ela investiga a radiação da verdade” de tal modo que, “quando se sabe que um termo de um sistema lógico descreve um fato, todo o sistema ligado a esse termo torna-se, por assim dizer, incandescente”.[40]

Sem dúvida, poucas pessoas entendem as implicações práticas de suas declarações sobre economia. Quando dizem que a “salvação” da economia é o aumento do crédito, é como se dissessem que o processo de “salvação” da economia é o aumento das dívidas: são afirmações diferentes para a mesma coisa, só de pontos de vista opostos. Quando dizem que o caminho para se chegar à prosperidade está no aumento dos preços dos produtos agrícolas, é como se dissessem que o caminho para se chegar à prosperidade está em encarecer o alimento para o trabalhador da cidade. Quando dizem que o segredo da criação de riqueza nacional é a distribuição de subsídios pelo governo, é o mesmo se dissessem que o meio de criar a riqueza nacional é o aumento de impostos. Quando dizem querer o aumento das exportações, muitos não compreendem que, por fim, tornam seu objetivo principal o aumento das importações. Quando dizem, sob quase todas as condições, que a solução para a recuperação é o aumento de salários, estão apenas buscando outra forma para dizer que a solução para a recuperação está no aumento do custo de produção.

Não se segue – pelo fato de cada uma dessas proposições, como uma moeda, ter seu reverso, ou porque a proposição equivalente soa menos atrativa – que a primeira proposta seja irracional sob qualquer condição. Pode ser que, em algumas ocasiões, um aumento de dívidas seja uma consideração insignificante se comparada com os ganhos conseguidos através de fundos tomados por empréstimo: quando um subsídio governamental é inevitável para atingir certo fim, quando determinada indústria pode permitir-se um aumento no custo da produção, etc. Mas devemos estar certos de que, em cada caso, ambas as faces da moeda tenham sido consideradas e que todas as implicações de uma proposta tenham sido estudadas. E isso raramente é feito.

2

A análise dos nossos exemplos ensinou-nos, incidentalmente, outra lição: ao estudar os efeitos de várias propostas, não apenas sobre grupos determinados, a curto prazo, mas sobre todos os grupos, a longo prazo, as conclusões a que normalmente chegamos correspondem às do senso comum. Não ocorreria a pessoa alguma, não familiarizada com o prevalecente semianalfabetismo econômico, que é bom ter janelas quebradas e cidades destruídas, que não passa de desperdício criar projetos públicos inúteis, que é perigoso deixar hordas de homens ociosos retornarem ao trabalho, que as máquinas, que aumentam a produção da riqueza e economizam o esforço humano, devem ser temidas, que as obstruções à livre produção e ao livre consumo aumentem a riqueza, que a nação se torna mais rica, forçando outros países a comprarem suas mercadorias a preços abaixo do custo da produção, que a poupança é tola ou prejudicial e que a dissipação traz prosperidade.

“O que é prudência na conduta de toda família particular” – disse o decidido bom senso de Adam Smith em resposta aos sofistas de seu tempo— “dificilmente pode ser loucura na de um grande reino”. Homens inferiores, todavia, perdem-se em complicações: não reavaliam seus raciocínios mesmo quando esses produzem conclusões que se evidenciam absurdas. Dependendo de suas próprias crenças, o leitor pode ou não aceitar o aforismo de Bacon, segundo o qual “uma pequena filosofia inclina o espírito do homem para o ateísmo, ao passo que a profundidade na filosofia conduz seu espírito para a religião”. É fato, no entanto, que uma ínfima noção de economia pode, facilmente, levar às conclusões paradoxais e ridículas que acabamos de ver, ao passo que a profundidade nessa ciência fará com que o homem retorne ao bom senso. Na economia, a profundidade está na busca de todas as consequências de uma política em vez de mirar o olhar para as que são imediatamente visíveis.

3

Ao longo de nosso estudo redescobrimos também um velho amigo.

É o Homem Esquecido de William Graham Summer. O leitor se lembrará do que lemos no ensaio de Summer, que apareceu em 1883:

Assim que A observa alguma coisa que lhe parece errada, da qual X está sofrendo, conversa a respeito com B e, então, A e B propõem a promulgação de uma lei que remedeie o mal e auxilie X.

Tal lei objetiva, sempre, determinar o que C deva fazer para X ou, na melhor das hipóteses, o que A, B e C devam fazer para X. […] O que eu quero fazer é olhar C. […] Chamo-o o Homem Esquecido. […]

É o Homem em quem nunca pensamos. […] É a vítima do reformador, do especulador social e do filantropo, e espero mostrar-vos, antes de terminar, que ele merece vossa atenção, dado seu caráter e os muitos encargos que sobre ele pesam.

É uma histórica ironia que, quando esta frase, o Homem Esquecido, reviveu na década dos anos 1930, foi aplicada não a C, porém a X; e C, a quem se pedia que sustentasse mais outros X, ficou ainda mais completamente esquecido que nunca. É este C, o Homem Esquecido, que é sempre chamado para estancar o sangue do coração ferido dos políticos, pagando por sua piedosa generosidade.

4

O estudo de nossa lição estaria incompleto se, antes da conclusão da obra, esquecêssemos de analisar que a falácia fundamental, de que viemos tratando, não surge do acaso, mas é, na realidade, um resultado quase inevitável da divisão do trabalho.

Nas primeiras comunidades humanas, antes da divisão do trabalho, o homem trabalhava somente para si ou para sua família. O que consumia identificava-se com o que produzia, isto é, havia relação direta e imediata entre sua produção e satisfação de suas necessidades.

Quando, porém, se estabelece uma divisão de trabalho aprimorada e minuciosa, cessa de existir essa relação direta e imediata. Deixo de produzir todas as coisas que consumo, pelo menos, uma parte delas. Com a renda que obtenho ao fazer uma única coisa, ou pela prestação de um único serviço, adquiro todo o resto. Desejo que o preço do que compro seja baixo, mas que o preço da mercadoria ou dos serviços que vendo seja alto. Portanto, embora deseje ver abundância de todo o resto, é de meu interesse que exista escassez da mercadoria que ofereço. Quanto maior a escassez, comparada com tudo o mais, da mercadoria que ofereço, tanto maior será a recompensa que poderei obter pelos meus esforços. Isso não significa, necessariamente, que restrinja meus esforços ou minha produção. De fato, se sou apenas um, entre apreciável número de pessoas que oferecem a mercadoria ou que prestam determinado serviço, e se existe livre concorrência em meu ramo, a restrição individual não me compensará. Pelo contrário, se cultivo trigo, digamos, desejo que minha colheita particular seja tão grande quanto possível. Mas se estou preocupado somente com meu próprio bem-estar material e não tenho escrúpulos humanitários, desejo que a produção de todos os outros produtores de trigo seja a menor possível, pois desejo a escassez do trigo (e de qualquer outro produto alimentício que o substitua), de modo que, com minha colheita particular, possa impor o preço mais alto possível.

Sem dúvida, tais sentimentos egoístas não têm efeito sobre a produção total do trigo. Sempre existe, na realidade, a concorrência, e cada produtor é obrigado a maximizar a produção de suas terras. Assim, as forças do egoísmo (que, bem ou mal, são mais persistentemente poderosas que as do altruísmo) são utilizadas no sentido da produção máxima.

Mas se é possível aos produtores de trigo ou a qualquer outro grupo de produtores se associarem para eliminar a concorrência, e se o governo permitir ou encorajar tal medida, a situação se modificará. Os produtores de trigo talvez persuadam o governo nacional – ou, melhor, uma organização mundial – a forçá-los a reduzir pro rata a área de plantação de trigo. Dessa maneira, provocarão a escassez e aumentarão o preço do trigo, e se o aumento do preço por bushel for proporcionalmente maior que a redução da produção, como poderá ocorrer, então os produtores de trigo, no geral, ficarão em melhor situação. Conseguirão maior quantidade de dinheiro e poderão comprar maior quantidade de bens e serviços. É verdade que todos os outros ficarão em situação pior, pois, ceteris paribus, todos os demais terão que dar mais do que produzem e obterão menos do que os produtores de trigo produzem. De modo que o país, como um todo, estará sob esse aspecto mais pobre pela quantidade de trigo que não produziu. Mas os que consideram apenas os produtores de trigo verão o ganho e não perceberão a perda.

Aplica-se isso a todas as demais atividades. Se, por motivos climáticos, há súbito aumento na colheita de laranjas, todos os consumidores serão beneficiados. O mundo estará mais rico em virtude dessa maior quantidade de laranjas.

Mas esse fato, justamente, poderá tornar mais pobres do que antes os produtores de laranjas, como um grupo, a menos que a maior oferta de laranjas compense o preço baixo. Certamente, se sob tais condições minha colheita particular de laranjas não for tão grande como de costume, estarei vitimado a perder com o preço baixo causado pela abundância geral.

O que se aplica às mudanças na oferta aplica-se, também, às mudanças na demanda, quer causadas por novas invenções e descobertas, quer por mudanças nas preferências. Uma nova máquina de colher algodão, conquanto possa reduzir o custo de roupas e camisas de algodão para todo mundo e aumentar a riqueza geral, deixará sem trabalho milhares de apanhadores de algodão. Uma nova máquina têxtil, tecendo melhor uma roupa em ritmo mais rápido, tornará obsoletas milhares de máquinas antigas e eliminará parte do valor do capital nelas investido, tornando, assim, mais pobres os proprietários dessas máquinas. O desenvolvimento da energia atômica, conquanto possa conceder bênçãos sem conta à humanidade, é temido pelos proprietários de minas de carvão, poços de petróleo e hidrelétricas.

Do mesmo modo que não há aperfeiçoamento técnico que não prejudique alguém, não há mudança nas preferências do público ou na moral que não venha a prejudicar outra pessoa. Um declínio no jogo de azar forçará crupiês a procurar ocupações mais produtivas. Um aumento da castidade do homem arruinaria a mais antiga profissão do mundo.

Não só aqueles que servem aos vícios humanos, entretanto, seriam prejudicados com uma súbita melhoria da moral pública. Entre os mais prejudicados estariam, precisamente, aqueles cuja função é melhorar a moral. Os sacerdotes teriam menos motivo para queixas, os reformadores perderiam o objeto de suas causas, a procura dos serviços deles e as contribuições para mantê-los declinariam. Se não houvesse criminosos, precisaríamos de poucos advogados, juízes e bombeiros, e de nenhum carcereiro, nenhum serralheiro e (salvo para serviços tais como eliminar complicações do trânsito) nem mesmo policiais.

Por fim, sob um sistema de divisão do trabalho, é difícil imaginar maior atendimento de qualquer necessidade humana que, pelo menos temporariamente, não prejudique algumas das pessoas que tenham feito investimentos ou, penosamente, adquirido habilitação para satisfazer a essa mesma necessidade. Se o progresso fosse absolutamente igual em tudo que nos cerca, esse conflito de interesses de toda uma comunidade e o de grupos especializados não apresentaria, se de fato fosse notado, qualquer problema sério. Mas se eu também pudesse, por causa do aumento de ofertas, comprar por preço mais baixo a produção de todos os demais, não teria, então, motivo para queixar-me. Se o preço de tudo o mais caísse exatamente na mesma proporção da queda do preço de meu trigo, eu estaria em melhor situação e exatamente na proporção do aumento de minha colheita total. Todos os demais se beneficiariam, também, proporcionalmente ao aumento das ofertas de todos os bens e serviços.

Mas o progresso econômico nunca se realizou e, talvez, nunca se realizará dessa maneira uniforme. Ocorre ora em um ramo de produção, ora em outro. E, se há aumento súbito na oferta do produto que cultivo ou se alguma nova invenção faz com que não seja mais necessário o que produzo, então o ganho para o mundo será uma tragédia para mim e para o grupo produtor do qual faço parte.

Ora, não é o ganho generalizado com o aumento da oferta ou com nova descoberta que impressiona mesmo o observador mais desinteressado, mas a perda concentrada. Ter mais café, cada vez mais barato para todo mundo, é fato que não chama a atenção; o que se vê é que alguns plantadores de café não podem subsistir com o preço baixo.

O aumento da produção de sapatos a baixo custo, resultante do emprego de nova máquina, é esquecido; o que se vê é que um grupo de homens e mulheres perde seus empregos. É perfeitamente natural – e, na realidade, essencial para a plena compreensão do problema – que se reconheça a difícil situação desses grupos, que sejam tratados com simpatia e que busquemos ajudá-los a encontrar, em outro lugar, uma função produtiva.

A solução, porém, não estará em reduzir arbitrariamente a oferta, em impedir novas invenções ou descobertas, ou em sustentar as pessoas via obras públicas, abrindo e fechando buracos. Tais medidas, todavia, são as que o mundo tem, constantemente, querido adotar através de tarifas protecionistas, destruição de máquinas, queima de café e milhares de outros esquemas de restrição. É a doutrina insana e falsa da riqueza mediante a escassez.

É esta nossa lição em sua forma mais generalizada, pois se vê que muitas coisas que parecem verdadeiras, quando nos concentramos em um único grupo, são ilusões, quando se consideram os interesses de todos, tanto dos consumidores como dos produtores.

Ver o problema como um todo, e não em fragmentos: este é o objeto da ciência econômica.


[39] The Lesson Restated. In: HAZLITT, Henry. Economics in One Lesson. Irvington-on-Hudson, NY: The Foundation for Economic Education, 1952. p. 169–178.

[40] SANTAYANA, George. The Realm of Truth. 1938. p. 16.